Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Depois do ontem

(e depois do ontem)

De vez em quanto volto aqui, é verdade que cada vez menos, mas há muito, muito tempo... Não é o lugar, que nem sequer existe, mas as palavras que me impelem neste tropismo insconsciente. E como é bom regressar às palavras, ao provisório, ao que é só meu por instantes, mesmo sabendo que são pedaços roubados sabe-se lá onde. A memória é um vão de escada cheio dessas coisas roubadas, algumas partilhadas, outras esquecidas, a maioria inúteis. Estão ali, no vão de escada, acessíveis a todos os que passam, apenas dependentes de um olhar ou de um gesto.

 

(o mundo aconhegado no seu egoísmo)

Não sinto qualquer angústia pela indiferença, pelo passar por aqui sem deixar rasto. O homem é provavelmente o único animal com capacidade de rejeição - as coisas funcionam assim, há que ser realista -, mas a ausência perturba-me. O vazio não é um lugar, não é uma palavra, não é um gesto ou um olhar, é nada. Assim, sem mais.

 

(é o vento e alguma chuva?)

Longe, longe deste frenético quotidiano de coisas aparentemente sérias, mas de duvidosa utilidade e que nos põem cada vez mais longe de nós próprios. Num mundo cheio de urgências, de necessidades injustificadas, de solicitações incompreensíveis é preciso reaprender a sermos justos connosco próprios. É uma questão de auto-estima.

  

(aqueles passos apressados na rua significam o quê?)

E esta página em branco que de repente me fez remexer no lixo do vão de escada à procura de um pedaço amarrotado de memória. Como é bom regressar às palavras!

Publicado por Fernando Delgado às 01:03
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