Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Ruralidades

Olhemos para o fenómeno mais visto neste quotidiano de Julho: os incêndios. Qual é o ponto de partida? Não sei, mas excluo, porque não me interessa, o aspecto mediático da questão. Vamos ao que me parece essencial, ao ponto de partida, às políticas rurais do Estado Novo, às migrações das décadas de 60 e 70 e às políticas erráticas das últimas três décadas. Estamos a falar de um período muito longo que é o que mais me assusta em tudo isto. Assusta porque demonstra que os desequilíbrios levam muito tempo a consolidarem-se e a revelarem as suas consequências e, mais dramático, os "novos" equilibrios levarão ainda mais tempo a emergirem deste "caldo" instável. Este é um período de caos, em que a previsibilidade relativamente ao que acontecerá ao mundo rural é quase nula. Depende do ponto de partida e este é fluído, reflecte apenas as contradições do passado e as incertezas do presente. Mas há duas notas de optimismo em tudo isto. A primeira exprime a convicção de que o rural é o único sistema que se consegue autoregular à revelia do "regulador". Demora é demasiado tempo a "revoltar-se". O segundo traduz a vontade de participar nesse sistema de autoregulação, mesmo sabendo que o meu tempo de acção é ínfimo, quase nada. Por muito que a afirmação seja chocante, este inferno de chamas faz parte deste longo percurso. Triste e inevitável, apesar de imprevisível. O surgimento de novos equilíbrios depende de uma gestação longa e conturbada, que não exclui a acção quotidiana, mas claramente a limita à sua verdadeira dimensão.
(Embora não o diga, talvez por medo de assumir o pessimismo que o pensamento em si encerra, recorro muitas vezes ao princípio da incerteza e à teoria do caos para justificar algumas das perplexidades que o meu olhar distraído vorazmente capta de alguns fenómenos que aparentemente se repetem. Não se trata de acreditar ou não na capacidade da ciência e dos homens para explicar e resolver os fenómenos. Trata-se tão só de admitir que, apesar da matemática, da física, da biologia, dos computadores..., do dinheiro, a previsibilidade tem limites, isto é, o futuro depende do ponto de partida e este foi ignorado ou é incerto, e a capacidade de detectar e alterar o rumo das coisas encerra sempre uma enorme probabilidade de erro).
Publicado por Fernando Delgado às 23:53
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