Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Tulipas de Pingo Doce

(A notícia é recente: "Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal". Não me apetece tecer grandes comentários, mas de repente lembrei-me de um texto, já com uns bons anos, de A. Barreto - quem diria... Aqui fica, apesar de já antes me ter referido a ele.)

 

 

«A minha pátria é uma conta bancária


Crimes, casamentos e luta entre poderosos: eis três dos mais atraentes condimentos da crónica que excita toda a gente. Nem as misérias humanas, que as televisões transformaram em notícias, destronam aqueles clássicos. Apesar disso, a ficção vem desvalorizando o crime. E o casamento, por causa do sexo, já não é o que era. Só a luta entre os ricos mantém toda a sua potencialidade. As disputas entre a família Champalimaud, o Govemo, os banqueiros portugueses e um banco espanhol estão nesse caso.

É interessante verificar como os argumentos, de qualquer lado, são comuns. A palavra dada, os compromissos, a honra, a liberdade, a transparência, a legalidade e o interesse nacional são invocados por todos. Rapidamente se percebe que a querela é política. O que está em causa é o poder. E, como nos filmes, a vingança. Depressa se compreende que os participantes neste enredo têm as suas interpretações dos valores em causa. A família Champalimaud, por exemplo, cujas contribuições para a história contenciosa portuguesa são famosas, tem ideias próprias sobre a palavra, a honra e a pátria. E todos os restantes têm as suas ideias sobre tais vocábulos e realidades.

As profissões têm códigos de conduta. Os estados e as condições também. Da ética empresarial, por exemplo, não fazem parte a palavra, a honra e o patriotismo. Pode um empresário, como ser humano, cultivar tais valores. É melhor que assim seja. Mas, como profissional, não é o que se Ihe pede. Exige-se-lhe, isso sim, que ganhe. Podemos não gostar. Mas as coisas são assim.

Compare-se com a ética política, por exemplo. Ou com a do desporto. Para já não dizer a militar. Diferentes umas das outras, integrando valores diversos, têm princípios afins. Entre eles: ganhar. É sabido como, na guerra, se perdoa tudo ao nosso soldado, enquanto tudo se condena ao adversário. Ou como, no desporto, o fim justifica os meios. Ou ainda como, na política, para uma vitória eleitoral, vale tudo.

É infeliz que assim seja. Gostamos mais de um “cavalheiro”. Admiramos o fair play. Elogiamos quem, a ganhar mal, prefira perder bem. Apreciamos os que respeitam regras de generosidade. E sublinhamos o princípio moral de que os fins não justificam os meios. Eis valores que nos permitem viver numa meIhor sociedade do que aquela onde apenas vigorem as éticas do sucesso e da vitória.

Mas muito disso é literatura. Aos nossos soldados perdoa-se e exige-se tudo, sobretudo em campo de guerra, onde todos os princípios morais estão suspensos. As hordas desportistas estão quase sempre à beira do massacre do inimigo, literalmente. À procura da vitória, os militantes políticos estão geralmente prontos para tudo. À espera de lucros, empresários e accionistas “não olham a meios”. Um empresário não tem de ter palavra e honra. Um homem sim. Mas um empresário tem de ter balanços e cash flow.

Previsivelmente, bairristas ou seguidores, soldados ou accionistas, evitam argumentar com os seus interesses: eles sabem que, fora das profissões, algures no património de uma comunidade, há valores mais universais que poderão formar uma moral comum. Ou uma cultura. Por isso os argumentos são sempre gerais e abstractos. Para defender o seu interesse, o aficionado, o guerreiro ou o capitalista afirmarão sempre a sua honra, a palavra, o interesse nacional, a justiça e a ética.

Estamos pois no reino de uma semântica social e de códigos de conduta privados. Não duvido de que Champalimaud seja patriota, com a sua ideia própria de pátria, urna pátria cujo governo lhe deixe fazer o que quer. No exercício da sua profissão, para que tem, dizem, excepcional talento, fez o que sabe: negócios, bluffs, ousadias, manobras de diversão e mais-valias. Pôs em prática, no seu interesse, os desejos de internacionalização tão apregoados pelas autoridades. Se faltou a regras de cortesia, a compromissos e a palavra dada, terá sido em nome da sua empresa, que é a sua pátria.

A este propósito, o argumento que defende o capitalismo nacional é débil. Com efeito, a vontade de preservar em mãos nacionais o capital de um grande grupo não resiste à primeira prova. E se o interesse desse capitalista nacional é o de vender a quem melhor paga? E se o interesse do grupo é o de se submeter a um mais poderoso? Será que a decisão de vender a estrangeiros, tomada por um reputadamente bom empresário português, faz dele um traidor?

Quanto ao Governo, aos governos, sobretudo o actual, mas também o anterior, o que lhes critico é de não saberem o que querem. Ou antes, de quererem tudo. Investimento estrangeiro e capitalismo nacional. Multinacionais e capitalistas portugueses. Grupos fortes e controlo político. Internacionalização e nacionalismo económico. Grandes barões e capitalismo popular. Centros de racionalidade e democracia económica. Livre iniciativa e selecção dos bons capitalistas. Das leis gerais sobre privatizações, aos diplomas de alienação, raramente os governos foram precisos quanto aos papéis respectivos do Estado e do mercado. E nas negociações concretas, sempre o Estado demonstrou querer guardar, informalmente, prerrogativas que não assumia explicitamente. O que em resumo se diz: não sabem o que querem.

Aprendi, há muitos anos, que a neutralidade pode ser um defeito. Houve até quem dela fizesse o “último círculo do inferno”. Mas a vida também me ensinou a reconhecer que há combates que não nos dizem respeito. E que, nesses, só tomam partido os interessados, os fanáticos e os parvos. Pela sucessão de gestos de um e de outro, entre o Governo e Champalimaud, venha o Diabo e escolha. E que tenha bom proveito.

Completamente bêbedo, um tenor de ópera deu, em Londres, conferência de imprensa. Ladeado de dois membros do Governo português, que ali se deslocaram de propósito, defendeu a realização de um campeonato de futebol em Portugal. Tendo-lhe alguém perguntado porquê, respondeu: “Porque o Governo português foi o primeiro a pedir.” Também aqui, pelos vistos, vale tudo.

(20. 6. 1999)

 

António Barreto. Uma Década. Retrato da semana 1991-1999. Relógio d'água. pp 499-502.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:07
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