Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Kundera

«[...]

Nunca acabaremos de criticar os que nos deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter o passado mais do que uma miserável parcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia enquanto existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

Imagino a emoção de dois seres que voltam a ver-se passados anos. Outrora frequentaram-se, e pensaram por isso estar ligados pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. As mesmas recordações? É aqui que o mal-entendido começa: não têm as mesmas recordações; os dois guardam do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um tem as suas; as suas recordações não são parecidas; não se encontram; e nem sequer quantitativamente são comparáveis: um recorda-se do outro mais que o outro se recorda dele; primeiro porque a capacidade de memória difere de um indivíduo para outro (o que seria ainda uma explicação aceitável para cada um deles), mas também (e é mais penoso admiti-lo) porque não têm a mesma importância um para o outro. Quando Irena viu Josef no aeroporto, lembrava-se de cada pormenor da aventura passada de ambos; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro segundo, o seu encontro assentava numa desigualdade injusta e revoltante.

[...]»

 

Milan Kundera in A Ignorância. D. Quixote, 1ª ed. pp 101-103.

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Publicado por Fernando Delgado às 00:49
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