Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Tráfico Cultural

(Poderia discorrrer à volta desta idéia, mas dificilmente a exporia de forma tão clara, objectiva e simples. Por isso limito-me a transcrever todo o texto daqui)

 

«Sou pelo tráfico cultural proporcionado pela amizade. Não há melhor forma de se chegar a um disco, a um livro ou a um filme do que a opinião de um amigo. As estrelinhas dos amigos até podem ser enganosas mas são inteiramente confiáveis – porque nos conhecem, as nossas manias e aversões e as nossas apetências e apegos. Quando um amigo diz “tens de ir ver isto porque isto é a tua cara!” torna-se no instante mais importante do que os mais significativos críticos e do que o melhores suplemento cultural da Nação. Traz, para usar o termo, um suplemento de afectividade que merece a maior das considerações. Mesmo que esteja  a atirar completamente ao lado.

 

Não quero menorizar a comunicação social escrita – até escrevo, muito confortavelmente, crónicas sobre livros e restaurantes para jornais e revistas. Quero é tirar aos recenseadores o peso da responsabilidade de, em exclusivo, nos mostrar “a cultura”. Alguma da aversão que existe em relação a alguns críticos e suplementos tem a ver com a excessiva responsabilidade que lhes é atribuída. Se as pessoas chegassem aos “objectos culturais” por si, sem mediações de maior, ninguém iria culpar ninguém por ter ido ver um filme multi-estrelado por uma publicação de referência que “afinal é uma grandessíssima merda”.

 

Ninguém vai levar a mal um amigo que nos levou a ler um livro que é uma seca. Mais dificilmente isso acontece com “o crítico”. Que é alguém a quem atribuímos uma autoridade que, coitado, nem sempre tem – está muitas vezes tão preso a deslumbres e a aversões e animosidades, até pessoais, como nós. Sim, nisto da cultura é importante ser-se mais pela iniciativa e responsabilidade pessoais. Hoje em dia é muito fácil fazer-se a escuta de um disco – na net e nas lojas. Chegar a uma livraria e espreitar um parágrafo. E é muito fácil entrar num cinema e num teatro (há tantos), sem que levar na mala uma data de conselhos que podem ser ruído para escolhas que se desejam o mais livres  que se puder.

 

Demasiado público tem com os jornais, as televisões, as rádios e agora a rede a mesma relação que muitos cidadãos têm com o Estado: culpam-nos de tudo o que de mal - e ocasionalmente de bom - tem acontecido culturalmente nas suas vidas. Tá mal, tá. Se petiscassem mais cultura por sua conta e risco talvez a coisa fosse diferente.»

 

Petiscar a Cultura. Nuno Costa Santos in Sinusite Crónica.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:51
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