Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

António Lobo Antunes

(Ó António, começa a ser quase impossível ler o que escreves. Não é que espere uma história escorreita e simples - até porque sei que não gostas de contar histórias, mas de estar perto do coração da vida, signifique isso o que significar…-, mas apenas uma escrita que não me canse, não me deixe de rastos ao fim de uma hora de leitura. Já foi difícil com Ontem Não Te Vi Em Babilónia e com Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, os teus dois últimos livros que li, mas agora é quase insuportável. Admito que esta não seja a noite para ler mas, que diabo, estar mais perto do coração da vida é estar mais longe da compreensão da escrita?

Transcrevo, mas transcrevo mesmo, palavra a palavra, sem scanner, numa tentativa de melhor entender essas palavras, o iníco do terceiro capítulo do teu livro, prometendo que amanhã farei outra tentativa de leitura).

 

 

«Se as vozes não voltam não se escreve este livro: que dizia ela, que digo eu que não seja ditado pelas folhas e as coisas ou então desconhecidos na minha cabeça a discorrerem sem fim, sementes de avenca falando de nós, eu a convocar ambulâncias e joelhos doentes, a repeli-los

         - Enganei-me

         enquanto a minha mãe coxeia a sua desgraça, feita de granito em labaredas, e o meu pai, atrás dos cavalos e bispos de xadrez, à espera que o matem quando sou eu que desejam matar, bem lhes sinto as ameaças desde Moçâmedes

         - Ai Cristina

         assim que o mar de um lado, e o deserto do outro, principiaram a empurrar-me para o interior do meu corpo em que fui tão grande em pequena e me limito agora a um cubículo onde explodem granadas que me desfazem osso a osso, não olho para ninguém, não respondo, permaneço quieta na Clínica e quieta na sala, no desejo que não dêem  por mim nem pela minha mãe na província, diante do espantalho da horta

         - Qual de nós dois é a Alice?

         enquanto o avô tacteia o mundo com a cabeça ao alto dos cegos, convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes

         - Rapariga

         um espantalho de boina e sobretudo, com restos de luvas nas canas dos braços, que os tordos não respeitam, tronco de palha com um seixo a imitar o coração a contrair-se lá dentro, foi o avô quem introduziu o coração na palha

         - Deixem-no viver como a gente

         e no de a mãe se aproximar a pedra viva latia, como tudo late também em África incluindo os defuntos, era necessário perguntar antes de os enterrar

         - Tem a certeza que faleceu?

         eles a pensarem na resposta, apesar de cheirarem a cinzas e capim ardido, e todas aquelas moscas passeando na pele

         - Acho que sim mas não tenho a certeza

porque convém medirmo-nos com atenção a fim de saber como estamos, avaliar o pulso, colocar um espelho na boca e notar se embacia ou não embacia, sugerir

         - Mete-se na sepultura a ver

         e no caso de ser incómoda a terra na cara eles previnem

         - Afinal enganei-me

         porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina, chuva para cima em lugar de para baixo e os rios não no sentido do mar, direitinhos à gente, damos pelos finados à mesa, cruzamo-los nas ruas, empregam-se nas estradas a nivelar o alcatrão, o avô da minha mãe desconfiado

         Não andas a mentir?

         e a prova de que não ando a mentir está em que você a disfarçar as ternuras

         - Rapariga

         depois de séculos à conversa com os choupos […]»

 

António Lobo Antunes in Comissão das Lágrimas, pp 49-50. D. Quixote, 3ª ed.

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Publicado por Fernando Delgado às 00:40
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