Sexta-feira, 15 de Julho de 2005

Cúmplices

Pic0154.jpg

(Olhar para estas pedras é sobretudo perceber que mãos estiveram ali... Descrever estas pedras é contar uma história em que as personagens são bem reais. Pode parecer estranho, mas escrever estas histórias é das tarefas mais difíceis que existem. Há um Blog onde se podem ler textos em que esta realidade é assumida quase como uma nova linguagem. Chama-se basagueda e a palavra é escrita rente ao chão, como uma voz que se ouve e vê. Vale sempre uma visita e, com a devida vénia, aqui fica um texto do Changoto:)

"Zé pantelhão era latoeiro. Botava pingo de solda em caldeiro, pote ou cântaro. Fazia a mistura do chumbo e do estanho num rego de cimento. Aquecia o ferro numa pequena forja onde a hulha era afogueada com uma pinha e uma ventoinha que se rodava manualmente como uma manivela e que ele mantinha impecavelmente oleada. Numa latinha ao lado, pendurada dum prego retorcido, tinha o ácido que permitia a ligação dos elementos e, assim, unia o que estava desunido e permitia coalescência de materiais.
Percorria a parte sul do concelho em passo certo e no seu andar meneante fazia lembrar a banda da música naquele bamboleio sempre certo a partir do abaixamento do braço do mestre que indicava o início da marcha.
Tonho de aldeia, vizinho de pantelhão, sozinho quase conseguia reproduzir o som da banda. Só ele foi mais caminheiro andante do que pantelhão. Nem contrabandista ou comerciante de figo seco e outra marouva, que subiam a marvana e a serra da raposa e malcata até ao sabugal caminharam o que tonho de aldeia calcorreou. Foi visto muitas vezes em Lamego, a norte, e em Portalegre a sul e todo o distrito o conhecia. Figura ímpar nas suas calças pelo tornozelo, santo de ocasião pendurado em tabuinha segura à camisa por um alfinete já enferrujado, pé encardido metido em sapato avantajado, almotolia à frente e alforge atrás, navalinha atada à presilha da calça por baraço tão encardido como os pés, marreca acentuada e, claro, a mão direita sem três dedos, fruto de um rebentamento de uma bomba de foguete no S. Bartolomeu. O pai, o ti mnel ceguinho já trôpego acompanhava o tonho e de vez em quando tocava uns acordes numa guitarra com um som único. Deles se conta que uma vez o tonho foi pedir esmola a uma casa de campo e lhe deram pão com chouriça. Ele encheu o papinho com ela e ao velho deu só o pão seco. O velho, cego, mas de olfacto apurado, chamou-o à atenção: ó tonho cheira-me a chouriça! O tonho para além de lhe chamar mal agradecido esperou a oportunidade e ao passar dum regato junto a um sobreiro diz para o pai: salte que é rego! O velho saltou e bateu de caras com o sobreiro: rais ta parta tonho! porque não me disseste que estava aqui o sobreiro? E o tonho: então cheirou-lhe o pão a chouriça e não lhe cheirou o sobreiro a cortiça? Eu não acredito que o tonho tal tenha feito tanto mais que era ainda ele que mais ajudava a Maria da Luz que ainda anda por aí e as filhas do Zé Ambrósio.
Então onde é que está o AMELANCADO?
Aí vem ele: o tonho amelancou a almotolia que ficou a verter no fundo. Foi-se ao pantelhão e pediu-lhe: ó zéi, bota-me lá aqui um pingo no fundo da armetria e desamelanca-ma lá! O pantelhão olhou e disse: «ó tonho, não vês que não pode ser
… o pingo não pega na gordura do azeite e o bico da almetelia não entra na ponta da bigorna.
- Então e agora? - pergunta o tonho.
- Arranjas uma botelha das do vinho e assim já não se amelanca nem precisas de pingo.
Lembrou-se o tonho da cabaça onde em garoto metia as agúdias e não foi de modas: mais um baraço no pescoço da cabaça e pronto! Aí estava o tonho armado com a nova almotolia.

Arrancou o tonho todo contente em passo de banda de música: tá,tá,tá,tárátáta, pópopó tchim,tátata,pópoótchim…e encontro-o eu ao fundo da lagariça : ó tonho, então que dizem os jornais? O tonho espirra a pregar um susto e invariavelmente: “a guerra vai acabar! Espetaram um prego no cu do Salazar!"  
Publicado por Fernando Delgado às 01:11
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

O envelhecimento é a acum...

mapas rurais

Ajustando as velas

Contrastes

Religiões

Negro profundo

«Ninguém desce vivo de um...

Recomeços

«Custo social dos incêndi...

Sinais

Recoleção

Domesticação...

"geografia das ausências"

Galerias ripícolas

do res nulius ao black ac...

A case of you

Assimetrias

J. Fanha

Eduardo Mendoza

«o pregador de verdades d...

Belos dias

A Gente Vai Continuar

Talamou

Dylon

«A realidade é uma opiniã...

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos