Terça-feira, 26 de Julho de 2011

valter hugo mãe

«[…]

a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico. presa às atitudes dos homens viciara-se em homens, e nada do que fizesse seria honra para qualquer pai que a tivesse. assim era como se dizia, já não era filha de ninguém, se até os pais se recusavam a recordar o nascimento de tão atrofiada mulher, parida entre pernas como feita para alívio, nunca para viver. era disforme em pequeno, ponto pequeno, já feia para assustar as pessoas, e menina, diziam, vai ser bicho do diabo a distribuir o pecado em carne tão azarada. e era nos azares da sua carne que se rejeitava a filiação, para isso se deitou a teresa diaba às sortes, e como vingou não se imagina senão por forças demoníacas que a alimentaram. diaba, grunhindo e zurzindo em busca de prazer, pendurada em galho de homem o dia inteiro, batendo os raquíticos braços como asas, sem poder voar, sem andar direito, nada. todos lho diziam, anda, animal, some-te daqui a ver se te enfias numa toca e não levas uma pedrada. e ela sorria na sua meia loucura e rondava quem lhe falasse. como tive de lhe falar quando a vi, ou se calava do que viu, ou punha-lhe lâmina ao pescoço para a calar de vida. era assim simples, se abres a boca para espalhar o que ouviste sais deste mundo para outro. ela, saia levantada, grunhia risos e pedia-me que entrasse, entra aqui como de costume, estou com saudades tuas, meu amor.

 

o aldegundes duvidava da bondade de se aliviar na rapariga. era das coisas que ouvia na igreja, que humilhante seria fazer dos outros algo impensável. como pô-la de costas quando deus as fizera de frente. e nada de costas, como assim lhe dava prazer, talvez porque tão novo não lhe tivesse crescido o suficiente que enchesse à frente o que era a mulher, e pelas costas melhor se sentia. mas nada tinha importância, como lhe explicava, a ela cumpriam-lhe as forças negativas mais do que as positivas, e ao pôr-se nela havia que temer muito pela própria alma, mais do que pela dela. mas não por deus, que despreza as mulheres e as manchou de pecado, mas pelo diabo, à espreita no corpo delas a tentar agarrar-nos a alma a partir da ponta do badalo, dizia-lhe. ele olhou-me sem felicidade nem amargura, apenas resignado como o seu tempo de crescer, ultrapassado da sarga, olhando-a como a vaca velha e desnatural que não devia nunca parecer-lhe bela.

 

com alguns receios voltei ao corpo da teresa diaba eu também. […]»

 

valter hugo mãe in o remorso de baltazar serapião. Ed. Alfaguara, pp.75-76.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:01
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