Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

... apontamentos do rural agrícola

«Os agricultores vivem hoje asfixiados numa tenaz cujos braços cresceram desmesuradamente a partir da liberalização dos mercados e do crescimento da grande distribuição, alterando numa geração todo o contexto socioeconómico em que se movimentavam. Apesar das políticas agrícolas tentarem desviar, para um lado ou para o outro, o fulcro dessa tenaz, de modo a evitar uma morte súbita, a verdade é que, na maioria dos casos, apenas conseguiram ir substituindo os sectores de actividade e respectivos agricultores nos braços da tenaz, raras vezes possibilitando a criação de uma alternativa credível. Esta situação, facilmente verificável pela simples comparação dos preços dos principais produtos agrícolas e dos factores de produção de há duas décadas com os actuais, é o resultado de políticas agrícolas de tipo macro, mas foi ainda agravada, ao nível micro, com o desmantelamento e fragilização de pequenas estruturas locais que, em última análise, sobretudo em momentos de crise, poderiam constituir uma alternativa realista.

Este cenário não esconde que a agricultura deixou há muito tempo de ter uma importância económica significativa em muitos territórios rurais – os concelhos da Beira Interior são neste caso um bom exemplo -, nem que tal situação deve ser enquadrada no contexto mais vasto da evolução do mundo rural. Recorde-se que, pela primeira vez, no mundo, a população urbana é superior à população rural, embora esta alteração já tinha ocorrido na generalidade dos países europeus há alguns anos e que, independentemente da natureza dos conceitos rural e urbano e dos pormenores que os grandes números não revelam, em particular as especificidades nacionais, regionais ou locais, a verdade é que este fenómeno tem consequências em quase tudo: emprego, ambiente, desertificação, território.

Por outro lado, parece ser hoje consensual que a actividade agrícola não garante a viabilidade das comunidades rurais, assim como o abandono agrícola não implica necessariamente o abandono da terra ou das áreas rurais. Este consenso baseia-se na observação de que existe actividade agrícola desligada das comunidades rurais e uso da terra baseado em actividades não agrícolas. Mas tal pressuposto revela fragilidades graves quando se tenta perspectivar um futuro em que se sobreponham de forma virtuosa as dimensões económica e social dos espaços rurais, por um lado, e as características multifuncionais da agricultura, por outro, na ausência do principal agente de ligação entre estes diversos elementos - o agricultor – e na mitigação da sua função - fazer agricultura.

Estamos assim num tempo de mudança, num momento em que existe a convicção de que é possível a partir dos actuais agentes do mundo rural densificar um conjunto de relações económicas e sociais que permita, de uma forma sustentada mas necessariamente lenta, restabelecer um equilíbrio perdido. Não se trata de um retorno, mas da certeza de que a agricultura continua a ser a única actividade capaz de estabelecer uma matriz coerente de desenvolvimento para os territórios. Sem agricultura e sem agricultores, esses territórios ficariam reduzidos a pequenas ilhas dispersas, sem a necessária continuidade funcional, única forma de garantir a sua sustentabilidade.

Essa mudança faz-se obviamente com os agricultores, sejam eles casos de sucesso ou simples resilientes deste período de intensa intromissão das políticas agrícolas, mas também com novos agentes do desenvolvimento rural, em alguns casos como resultado da atracção do rural e de um novo paradigma de qualidade de vida, mas noutros apenas como consequência da repulsão dos centros urbanos face às insuficiências socioeconómicas resultantes da crise.

Neste ambiente de profunda mas lenta transformação do rural, há um novo papel de intervenção do poder local que, esgotada a fase da obra, característica do modelo de intervenção das últimas décadas, se pode voltar agora de uma forma decisiva para território. Esta intervenção do poder local no rural é já perceptível em alguns casos concretos. Não se espera que substitua os agentes locais, mas apenas que utilize a sua presença institucional e a sua capacidade financeira para fomentar a organização de funções produtivas onde a rarefacção de actores e de agentes não permite criar redes de desenvolvimento suficientemente sólidas. Espera-se ainda que os responsáveis do poder local estejam preparados para este tipo de intervenção, claramente de tipo imaterial, com resultados de médio ou longo prazo e sem a visibilidade de outras realizações.

Definitivamente o rural mudou, transformando-se num espaço cada vez menos habitado. Os desafios do futuro estão em conseguir actuar sobre estes territórios, evitando a degradação dos seus recursos e a consequente expulsão dos residentes que restam. Os tempos de mudança constituem oportunidades de futuro. Não existe nenhum dramatismo nesta evolução, mas seria trágico que se ignorassem as consequências.»

 

Artigo publicado na Revista VIVER. Nº17. ADRACES.

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Publicado por Fernando Delgado às 22:56
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