Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Erri De Luca

«[…]

      No Verão acordo cedo, vou aos rochedos de Santa Lúcia com a rede apanhar ouriços-do-mar e, se houver, um ou outro polvo. Estou lá um par de horas antes de o sol ultrapassar a encosta do vulcão. Saem dos clubes os senhores que regressam vindos de alguma festa nocturna. Com os seus fatos de noite expostos à primeira luz do dia, apressam-se a ir para o escuro como os morcegos atrasados. Vejo também sair o conde que mora no prédio e joga a propriedade nas mesas do clube. Não me vê. Os senhores têm uma vista diferente da nossa, que somos obrigados a ver tudo. Eles só vêem o que querem ver. Arregaço as calças até aos joelhos e desço os escolhos. Um golpe de sorte faz-me encontrar algo para põr na mesa. Antes de regressar a casa passo por Dom Raimondo para lhe devolver o livro. Faz-me encontrar um novo, escolhido por ele. Dom Raimondo é um livreiro aventuroso, recupera bibliotecas até da lixeira. Amiúde, é chamado a casas em luto que libertam o espaço do defunto.

      - Mais que a roupa e os sapatos, os livros é que trazem a marca da pessoa. Os herdeiros libertam-se deles por exorcismo, para se libertarem do fantasma. A desculpa é que precisam de espaço, sufoca-se de livros. Mas o que é que põem no seu lugar, encostado às paredes com a marca da forma deles?

      Dom Raimondo diz-me a mim o que não pode dizer a eles.

      - O vazio na parede deixado por uma biblioteca vendida é o vazio mais profundo que conheço. Trago comigo os livros mandados para o exílio, dou-lhes uma segunda vida. Tal como a segunda demão numa pintura, que serve para o retoque final, a segunda vida de um livro é a melhor.

      Recuperou a biblioteca de uma apaixonado pela literatura americana. Estou a ler belas aventuras sobre aquela terra para onde muitos napolitanos foram viver. Mas vê-se que não escrevem livros.

[…]»

Erri De Luca in O Dia Antes da Felicidade. Bertrand Editora.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:18
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