Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Zafón

Muitas vezes as contracapas dos livros têm pequenos textos, tipo resumo ou apenas pequenas transcrições de algumas frases mais emblemáticas que sempre me pareceram servir para uma de duas coisas: ou para determinar a opção de compra, em momentos de dúvida, ainda na livraria - o que designaria por uma operação de marketing, perfeitamente natural, pelo menos aceitável face à natureza de bem de consumo em causa; ou, segunda hipótese, para satisfazer gostos literários voyeuristas, típicos de uma sociedade em que as aparências são determinantes nos respectivos status sociais e que se traduzem em conhecimentos literários de inúmeros livros e respectivos autores exclusivamente pelos títulos dos livros e, na melhor das hipóteses, pelo tal resumo da contracapa – como semanalmente, de forma exuberante, nos demonstra o professor Marcelo…

 

Felizmente Zafón foge da contracapa, remetendo para as primeiras páginas deste livro um texto que, para além de me parecer uma provocação a estes voyeuristas, é acima de tudo um sublime exercício de escritor. Aqui fica:

 

      «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.

      Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido pelas ruas da má fama como num lapso de amnésia.

      Uma semana mais tarde, um polícia à paisana julgou reconhecer aquele rapaz; a descrição condizia. O suspeito vagueava pela estação de Francia como uma alma perdida numa catedral forjada de ferro e nevoeiro. O agente aproximou-se de mim com ar de romance negro. Perguntou-me se o meu nome era Óscar Drai e se era o rapaz que desaparecera sem deixar rasto do internato onde estudava. Assenti sem descerrar os lábios. Recordo o reflexo da abóbada da estação no vidro dos seus óculos.

      Sentámo-nos no banco do cais. O polícia acendeu um cigarro com calma. Deixou-o queimar sem o levar aos lábios. Disse-me que havia uma grande quantidade de pessoas à espera de me fazer muitas perguntas para as quais era conveniente que tivesse boas respostas. Assenti de novo. Olhou-me nos olhos estudando-me. “Às vezes contar a verdade não é uma boa ideia, Óscar”, disse. Estendeu-me umas moedas e pediu-me que telefonasse ao meu tutor no internato. Assim fiz. O polícia esperou que tivesse feito a chamada. Depois, deu-me dinheiro para um táxi e desejou-me sorte. Perguntei-lhe como sabia que não ia desaparecer de novo. Observou-me longamente. “Só desaparecem as pessoas que têm algum lugar para onde ir”, respondeu apenas. Acompanhou-me até à rua e ali se despediu, sem perguntar onde tinha estado. Vi-o afastar-se pelo Paseo Colón. O fumo do seu cigarro intacto seguia-o como um cão fiel.

      Naquele dia, o fantasma de Gaudí esculpia no céu de Barcelona nuvens impossíveis sobre um azul que fundia o olhar. Apanhei um táxi até ao internato, onde supus que me esperaria o pelotão de fuzilamento.

      Durante quatro semanas, professores e psicólogos escolares atormentaram-me para que revelasse o meu segredo. Menti e ofereci a cada um aquilo que queria ouvir ou o que podia aceitar. Com o tempo, todos se esforçaram por fingir que tinham esquecido aquele episódio. Segui o seu exemplo. Nunca expliquei a ninguém a verdade do que sucedera.

      Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.

      Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

 

Carlos Ruiz Zafón in Marina. Planeta.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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