Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Vargas Llosa

«[…] Era um ser pequenino e miúdo, mesmo no limite entre o homem de baixa estatura e o anão, com um nariz grande e uns olhos extraordinariamente vivos, onde bulia algo excessivo. Vestia de negro, um fato que se notava ser muito usado, e a camisa e o laço tinham nódoas, mas, ao mesmo tempo, na maneira como andava com essas peças havia nele algo de sóbrio e composto, de rígido, como os cavalheiros das velhas fotografias que parecem presos nas suas sobrecasacas engomadas, nos seus chapéus altos, tão justos. Podia ter uma idade qualquer, entre trinta e cinquenta anos, e luzia uma cabeleira oleosa e negra que lhe chegava aos ombros. A sua postura, os seus movimentos, a sua expressão pareciam o próprio desmentido do espontâneo e natural, faziam pensar imediatamente no boneco articulado, nos fios de títere. Fez-nos uma reverência cortês e com uma solenidade tão inusitada como a sua pessoa apresentou-se assim:

            - Venho furtar-lhes uma máquina de escrever, senhores. Agradecia que me ajudassem. Qual das duas é a melhor?

            O seu indicador apontava alternadamente para a minha máquina e para a de Pascual. Apesar de estar habituado aos contrastes entre a voz e o físico devido às minhas escapadas à Rádio Central, espantou-me que de uma figurinha tão mínima, de feitura tão desvalida, pudesse brotar uma voz tão firme e melodiosa, uma dicção tão perfeita. Parecia que nessa voz não só desfilara cada letra, sem uma só delas ficar mutilada, nem tão-pouco as partículas e os átomos de cada uma, os sons do som. Impaciente, sem dar-se conta da surpresa que a sua cara, a sua audácia e a sua voz nos provocavam, pusera-se a esquadrinhar e como que a farejar as duas máquinas de escrever. Decidiu-se pela minha veterana e enorme Regmington, uma carrinha funerária sobre a qual não passavam os anos. Pascual foi o primeiro a reagir:

            - O senhor é um ladrão, ou quê? – increpou-o e eu apercebi-me que me indemnizava pelo terramoto de Ispahan. – Passa-lhe pela cabeça levar assim sem mais nem menos as máquinas do Serviço de Informação?

            - A arte é mais importante que o seu Serviço de Informação, seu trasgo – o personagem fulminou-o, deitando-lhe um olhar parecido com o que merece o animal espezinhado, e prosseguiu na sua operação.

[…]»

 

Mario Vargas Llosa in A tia Júlia e o Escrevedor. D. Quixote.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:57
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