Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Sándor Márai

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/6,30; 1/200s;ISO 400; 200 mmm)

«[…] Ela tinha vinte anos; tu já eras juiz. Estavas solteiro. O resto… o resto já tu sabes, claro. Agora já sabes. Não te ofendas: não há razão nenhuma. Ninguém te acusa de nada. Não tens culpa de nada… talvez ninguém tenha. Sim, tenho uma pergunta a fazer-te. Uma só, já ta fiz antes. Mas pergunto novamente… Talvez… agora, que já sabes… agora, talvez entendas a pergunta. Alguma vez sonhaste, nestes oito, dez anos, com Anna?

A voz é humilde, suplicante, quase apaziguadora; é a voz onde se mesclam o mendigo e o médico. Kómives bate três vezes na mesa com o corta-papéis; seguidamente, põe de lado o objecto.

- Sonhar… O que é isso? – diz, rouco, em tom de desprezo. – Não são os sonhos a determinar a vida.

- Oh, não – apressa-se o médico a sossegá-lo. – Os sonhos, tens razão, não significam grande coisa. Não têm força capaz de modelar a existência… pelo menos, é raro terem efeito na vida diurna. Salvo, quando servem de exemplo, na ciência, na arte e na literatura. Mas, na maioria dos casos, tens razão, os sonhos só trazem confusão. Não têm sentido. E, com efeito, o sonho raramente tem uma causa, é quase sempre um efeito. Olha – diz em tom humilde e suplicante -, foi por isso que vim. Não te peço grande coisa. Simplesmente… antes de tomar uma decisão… Gostava de saber a verdade. É o mínimo que um homem na minha situação pode querer. Como se desses uma esmola a um mendigo, na rua. Ora, eu satisfaço-me com essa esmola. Confessa… não, é um termo excessivo e trivial. Tem piedade de mim, reflecte, lembra-te e dá-me como óbolo essa verdade confusa, inútil e sem interesse. Sonhaste, nestes anos, com Anna? – repete, obstinado.

O juiz tem um calafrio, estica os membros intumescidos: imóvel há horas, tem frio, e um arrepio desce-lhe pelas costas.

- Sonhar – diz, muito lentamente, como se precisasse de arrancar esta palavra de algures, de algum magma primitivo onde as palavras se confundem. – Sonhar é loucura – conclui penosamente, em tom arrastado.

- Sim, sim – apressa-se o médico a sossegar. – Os sonhos são uma insensatez. Não chegam a ser uma bruma. E não podemos fazer nada. São sombras que brincam connosco. Sonhaste?...

O juiz olha para o escuro.

- Dez anos – considera ele. – Dez anos, dizes tu… Não me lembro.

O médico apressa-se a sossegá-lo:

- Acredito, claro que acredito. Que atrevimento, julgar que… Ninguém se lembra de todos os sonhos insignificantes. E se eu não tivesse vindo aqui, esta noite, talvez nunca te tivesse ocorrido… A alma, às vezes, obra milagres. Consegue encerrar e isolar por completo um pensamento, uma recordação, um desejo… e fá-lo na perfeição. Vês, Anna não soube durante muito tempo. E quando, por fim, se encontrou a si mesma e compreendeu tudo, como alguém que descobre a realidade, que tem pés e mãos… aí, não percebeu onde haurira essa capacidade, a força para evitar durante dez anos enfrentar a realidade. Afirmou que os seus mecanismos de defesa tinham funcionado quase na perfeição. Claro, com os sonhos… com os sonhos já não tinha sido tão perfeito, mas de dia, durante esses dez anos, conseguiu, e estava quase sempre comigo, entre os meus braços. Ela amava-me, ou não teria sido possível. Mas, por outro lado, estava ligada a ti. Não é fácil acreditar. Eu não acreditava… e nem agora acredito, talvez. Por isso, estou aqui. Agora já não tem sentido prático, pois Anna morreu… sim, matei-a. O meu interesse é puramente teórico. Uma contraprova científica. Claro, também me interessa do ponto de vista pessoal… justamente porque Anna está morta. Sabes, ela contou-me, ontem à noite, que se encontrou contigo há dez anos, e foi como um terramoto, como se terra e céu se abrissem; foi “isso” para ela; o encontro foi “isso”… Parecia-lhe uma ordem. Não podia fazer ouvidos de mercador, pondo-se ao largo, nem esquivar uma interpretação. Ela creditava, e disse-mo ontem à noite, que tu também deves ter ouvido essa ordem. Era impossível não a ouvir, porque essa ordem era mais forte do que um trovão, e ninguém era tão surdo para não reagir. Um encontro desses acontece uma vez na vida. A vida segue o seu curso… e o homem… às vezes, passa ao largo. Não se pode explicar. Não é culpa de ninguém. A vida continua […]»

Sándor Márai in Divórcio em Buda. D. Quixote.

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Publicado por Fernando Delgado às 02:07
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