Sábado, 13 de Novembro de 2010

Medina Carreira

O Plano Inclinado transformou-se num programa de referência da televisão. O mérito deve-se exclusivamente a Medina Carreira, à forma única como aborda as questões da economia nacional e ao estilo de sem-papas-na-língua sempre bem recebido em momentos de crise. Acabou agora um desses programas na SICNotícias e é óbvio o desconforto que se sente naquelas palavras directas ao assunto que o professor utiliza. Pese embora este desconforto e a ideia de que afinal ele tinha razão, há coisas que merecem alguma reflexão.

Todo o raciocínio de Medina Carreira se parece basear na análise de actos e respectivas consequências, que geram novos actos e novas consequências. O mal estaria nos actos mal fundamentados e pior praticados, estando em causa, assim, os fundamentos e os objectivos das políticas, bem como (e em alguns casos, principalmente) os próprios agentes desses actos – os políticos. A solução passaria inevitavelmente por substituir uns e outros – as políticas e os respectivos agentes –, embora acabe sempre por achar que não há solução, que não há futuro, numa espécie de desabafo que tem que ser interpretado apenas como tal e por isso insignificante (na velhice, a bonomia e o azedume são sinónimos…)

Esta tese faz sentido considerando como bons os pressupostos que sustentam todo o raciocínio descrito. Mas há um pormenor que, pese embora toda a capacidade intelectual de Medina Carreira, me parece escapar-lhe: a ideia de que tudo é previsível e que as consequências são o resultado lógico de actos bem determinados pode não se verificar. Esta forma mecanicista de analisar a realidade, muito confortável na identificação dos erros cometidos e dos respectivos culpados, parece-me demasiado simplista. Desconfio que a realidade actual se baseia num conjunto de acontecimentos que só muito esporadicamente se relacionam. Na verdade, a maior parte das vezes não têm nada a ver uns com os outros. É esta realidade que é difícil de interpretar, de perceber, de reconhecer como fazendo parte de um mundo pretensamente estruturado e profundamente lógico e racionalista.

Na verdade, não basta seguir o rio e prever as enchentes, as secas e a maneira de as controlar. É preciso subir o rio e, no cimo da montanha, perceber que existem outros rios, que ironicamente correm noutras direcções. Não se trata de descobrir novos rumos (há muito que tudo se descobriu…), e muito menos de tentar desculpar os culpados (eles são de facto culpados, essencialmente porque são incompetentes e medíocres), mas de perceber o tal acontecimento que não depende do anterior e, por isso mesmo, por não existir continuidade, só é perceptível depois de iniciado. Daí o cimo da montanha, o lugar onde as descontinuidades fazem sentido...

Seja como for, Medina Carreira tem a virtude de nos alertar para alguns dos nós da sociedade e para a interpretação de alguns dos seus principais abismos. Mesmo assim, no final de cada Plano Inclinado, lembro-me sempre de uma frase conhecida e que é mais ou menos assim: um dia quis mudar o mundo, agora só quero sair com dignidade deste salão!

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Publicado por Fernando Delgado às 23:58
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