Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

O envelhecimento é a acumulação de erros

a ave sobrevoou as águas calmas e de um ponto indecifrável cresceram círculos concêntricos que refletiam todo o explendor de cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas e era o começo do dia do dia tão igual como desigual de tudo o que não vê não se toca cresce aparece e desaparece e aparentemente (não) e de certeza existe salta vive a partir de um ponto indecifrável

 

«Aurora era uma deusa grega da madrugada e de acordo com a mitologia apaixonou-se por um ser humano, um mortal chamado Titão. Ela queria que o amante mortal também fosse imortal. Então foi ter com Zeus, o pai dos deuses, e disse:  «Por favor, dá imortalidade ao meu amante.» Então Zeus disse: «Ok, ok, vou tornar o teu amante imortal.» Mas ela cometeu um erro enorme. Ao pedir a imortalidade, esqueceu-se de pedir a juventude eterna. Como consequência, o amante ficou cada vez mais velho, mais velho e mais velho sem nunca morrer.Quando tivermos a fonte da juventude, temos de garantir que, não só vamos viver para sempre, mas temos de aproveitar. Temos de viver para sempre num corpo que seja útil. E é aí que entra a loja do corpo humano...»

Michio Kaku – Físico. City College of New York. 10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

não era uma ave era um pássaro assustado que ia caindo na água e também não era um ponto indecifrável era o local exato em que o pássaro com medo defecou

 

«O envelhecimento é a acumulação de erros. Erros genéticos, erros celulares, erros moleculares. Mas erros do nosso corpo. Agora sabemos que sim, há mecanismos de correção dos erros, mas eventualmente também eles se desgastam. É por isso que morremos.»

Michio Kaku – Físico. City College of New York.  10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

e o pássaro voltou e poisou na beira do lago parecia cansado e assim de perto chamei-lhe ave e ele fugiu reconstruindo-se das cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas sobre as águas

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:41
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Patilhar
Domingo, 17 de Dezembro de 2017

mapas rurais

«Eu nasci na arrecadação da paisagem, num lugar bem desmapeado do mundo

Mia Couto. Contos do nascer da terra. Ed. Caminho, 8ª ed., pp 30.

 

«[...]

En efecto, ese pretendido movimiento de regreso al campo solo se produce, además de en las áreas de influencia urbana, en las zonas de montaña próximas a grandes núcleos de población, como en el Pirineo catalán o las montañas vasco-cantábricas, mientras todavía no afecta a las llanuras agrícolas del espacio rural profundo. Sin embargo, los municipios de montaña que crecen lo hacen porque llega a ellos un puñado de habitantes, incapaz por sí mismo de superar la atonía y falta de dinamismo general.

(...), podemos afirmar rotundamente que el campo del interior de España está en un proceso regresivo y de envejecimiento. No obstante, las áreas periurbanas, y especialmente las próximas a grandes ciudades, manifiestan un claro dinamismo, por irradiación desde la urbe.

Por el contrario, las extensas llanuras agrícolas del interior y las penillanuras de la Raya con Portugal (de Orense a Huelva) manifiestan una falta de dinamismo y de diversidad productiva que se traduce en un movimiento regresivo generalizado; un proceso tanto más acusado cuanto más pequeños son los núcleos de poblamiento, por su dificultad de albergar servicios que atraigan a la población.

[...]»

De la plétora demográfica al vaciamiento general: la difícil situación del campo en el interior de España. Fernando Molinero Hermano. Geógrafo, Universidad de Valladolid. Desarrollo rural y sostenible. RRN.

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(Pedrógão Grande, Nov, 2017)

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(Oliveira do Hospital, Nov, 2017)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 22:46
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Patilhar
Domingo, 10 de Dezembro de 2017

Ajustando as velas

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(Ambrósio, comi os FR, já só resta um... Ah, mas que chapéu bonito fizeste do lixo. Bravo, Ambrósio!)

 

Há coisas possíveis que parecem intangíveis e é estranho que assim seja!

Vistas deste lado (do lado racional?...) estas coisas possíveis até parecem simples, apesar de estupidamente informes, meio escondidas num canto da memória, prisioneiras de tudo e de nada, do todo e do vazio, mas espreitando de vez em quando num pensamento efémero.

Inscreveram o pessimismo no manual de boas maneiras, mas é só um manual cheio de regras inúteis... E como é estranho um manual de pessimismo! E como é trágico utilizar este manual de bolso...

E a realidade?

E se de repente estas coisas possíveis estivessem ao alcance da mão? Ah, batia-lhes com força, porque não há nada mais injusto que uma coisa possível que teima em olhar a realidade com desdém, como se o seu pequeno mundo invisível fosse todo o universo.

A realidade é uma chatice?

Este mundo é complexo, mas bastam alguns gestos para se ir tornando um pouco mais acolhedor, um pouco menos sombrio. Não tenho a certeza que estes gestos sejam a expressão exata das coisas possíveis e tangíveis, mas também não interessa – o pensamento sempre foi uma forma de conhecer e moldar a realidade.

("O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas" William George Ward - Teólogo, séc. XIX)

Inquieta-me a luz trémula da vela para além da porta aberta. É algo intangível, uma falsa entrada!

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:15
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Patilhar
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017

Contrastes

«DISPARIDADE DA RIQUEZA DE SILICON VALLEY PODE TRANSFORMAR SÃO FRANCISCO NUMA CIDADE FANTASMA

No final dos anos 90, ganhava €11/hora, vivia num apartamento com dois quartos e a vida era boa. Podia viajar de vez em quando, comprar jantar e bebidas e ir às compras. Não era rica, mas podia viver com o meu salário porque a minha renda era de €445 por mês”.

 

As palavras pertencem a Mikki Kendall, redactora do Quartz e residente em São Francisco. Segundo Kendall, os dias bons já passaram. Hoje, a renda média de um apartamento de um quarto em São Francisco é de €3.185, segundo o site Zumper, e a de dois quartos é de €4.320. No entanto, o salário mínimo continua nos €11/hora.

O aumento brutal do nível de vida da Bay Area, a Área Metropolitana de São Francisco, está relacionado com Silicon Valley, o principal centro de inovação e tecnologia do mundo e onde estão instaladas empresas como a Apple, Google, Facebook, Netflix, Intel, eBay, HP ou Pixar.

O problema, explica Kendall, não são os técnicos especializados e bem pagos, mas sim os outros trabalhadores. Onde irão morar os representantes do serviço ao cliente, os trabalhadores que tratam da manutenção dos edifícios, motoristas e outros profissionais que ajudam a indústria a crescer?

Segundo Kendall, mesmo que Sillicon Valley não queira saber do nível de vida de São Francisco – e não quer – , ela será confrontada com o problema. A não ser que queira passar a ser uma cidade fantasma.

“A estagnação dos salários é um problema em todo o lado. E as uniões, que normalmente lutam contra o aumento do custo de vida, estão continuamente sob ataque do sector da tecnologia”, segundo Kendall.

Caso esta tendência continue, de pouco valem salários elevados: os trabalhadores bem pagos do sector da tecnologia vão viver numa cidade sem serviços, uma vez que os custos de transporte ou rendas vão afastar as pessoas que providenciam esses serviços. “Uma cidade habitada exclusivamente por milionários não é funcional”, explica Kendall.

E se São Francisco quer evitar este destino tem de admitir que o problema da disparidade da riqueza vai acabar, eventualmente, por destruir todas as empresas de tecnologia – grandes e pequenas – e o próprio Vale do Silício.»

Para ler no Greensavers

 

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Patilhar
Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Religiões

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«O padre diz 'Levantem os vossos corações'. Ele não diz 'Levantem os vossos telemóveis para tirar fotografias (...). A missa não é um espetáculo!...»

- Papa Francisco, 08.11.2017

(cartoon da net)

 

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Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Negro profundo

Após a catástrofe dos fogos rurais, para além das cinzas, dos esqueletos das árvores e do negro profundo, há todo um mundo que se revela. Moldar a paisagem com todos aqueles muros de pedra empilhada à mão, não é coisa pequena, nem inteligível neste tempo de redes sociais e de realizações de curto prazo. Não, o profundo silêncio que emana daquelas encostas enlutadas são também os restos de vidas sem regresso. Restam as oliveiras moribundas como símbolos e testemunhos das heróicas histórias de cada uma dessas vidas!

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Encosta do rio Alvoco, junto a Vide, Oliveira do Hospital. 

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Patilhar
Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

«Ninguém desce vivo de uma cruz»

Um novo livro de Lobo Antunes (Até Que as Pedras se Tornem Mais Leves Que a Água) é um acontecimento!..., mas a entrevista que normalmente "acompanha" cada livro é em si mesma o acontecimento do acontecimento.

As palavras ditas e as palavras escritas encontram-se na esquina da rua. Nunca estiveram tão próximas.

Para ver e rever na RTP3 (Grande Entrevista, 08.11.2017).

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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

Recomeços

Esta é a estação das chuvas! É preciso embriagar-nos de água e rebolar na cinza lamacenta. É preciso crescer com as ervas e deixar a natureza encher as mãos. É urgente erguer os olhos e agarrar o arco-íris que se desprende do relâmpago. É tempo de abandonar a morte. 

É tempo de regressar a este país..., e mesmo que o improviso teime em sinalizar o caminho, é sempre nesse instante que tudo recomeça, que tudo vale a pena.

E não há espaço para absolvições porque não há nenhuma necessidade de perdão!

 
Publicado por Fernando Delgado às 00:40
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Patilhar
Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

«Custo social dos incêndios»

«O custo social* dos incêndios florestais varia muito significativamente de ano para ano, oscilando nos últimos anos entre um mínimo de 127 milhões de euros (2008) e um máximo de 1303 milhões de euros (2003) ou seja, aproximadamente de 10 a 100% da produção de riqueza florestal anual.

[...]

A despesa pública associada a DFCI [defesa da floresta contra incêndios] excede em muito a apontada habitualmente. Em vez dos cerca de 90 milhões de euros por ano contabilizados nos dados oficiais veiculados pelo ICNF e ANPC, a despesa pública total relacionada com a gestão de incêndios pode atingir os 140 milhões anuais.

Mantêm-se a evidência, apesar de algum aumento nos últimos anos do investimento da prevenção (financiado com fundos europeus), da maior parte da despesa (cerca de 2/3) ser destinada ao combate»

* Custo Social Total = povoamentos ardidos + matos ardidos + prevenção + supressão + perdas de bens e Serviços + recuperação áreas ardidas

Fonte: Relatório Comissão Técnica Independente (2017)

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Publicado por Fernando Delgado às 00:06
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Patilhar
Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Sinais

Reestruturação das interfaces rurais. Voluntariado na limpeza de uma "faixa de gestão de combustíveis" junto à aldeia de Ferraria de S. João (concelho de Penela) e plantação de árvores "resilientes ao fogo".

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Publicado por Fernando Delgado às 23:34
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Patilhar
Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Recoleção

Há zonas costeiras onde os agricultores trocam a terra pelo mar e recoletam algas. "Isto é um biscate", dizem, para acrecentarem "dá qualquer coisa, mas muito pouco..., dá para a bucha!" E para que serve e para onde vai? "Nem sei..., acho que é para as mulheres, para perfumes e coisas assim. Entregamos isto a uns tipos que depois mandam para a Holanda, nem queira saber..., compram isto tudo, desde que bem secas e bem vermelhas..., na seca não podem apanhar maresia ..."

Não conheço os pormenores desta atividade, mas as algas têm uma coloração lindissima e um odor intenso a mar ("odor a vida", disse-me um recoletor). A atividade de recoleção remete-me para uma fase primitiva da história humana e o negócio é como todos os outros: sabe-se onde começa, não se sabe muito bem onde acaba e nunca se conhecem todos os pormenores intermédios.

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(Secagem de algas entre a Nazaré e a Foz do Arelho)

 

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Patilhar
Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Domesticação...

... dizem os entendidos que o pombo é um animal sinantrópico! Cá para mim é apenas mais um fã da sociedade de consumo...

(... ou como os instintos primários - a fome, o sexo, ... - são tão distintos dos interesses mediáticos: enquanto uma multidão procura de olhos esbugalhados a onda gigante do canhão da Nazaré, o pombo aproveita a distração e, desde passas de figo a amendoins e nozes, tudo é apreciado com aparente prazer gastronómico. Nem as guloseimas embaladas escapam, o que só mostra uma sinantropia de elevado nível! ... Entretanto a onda nem sequer emergiu do mar preguiçoso...)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:13
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Patilhar
Terça-feira, 3 de Outubro de 2017

"geografia das ausências"

[Muitas leituras ainda se fazem exclusivamente em função dum paradigma do espaço, quando os territórios e o povoamento eram ocupados, em permanência. Entretanto a situação mudou, estamos num novo paradigma do tempo, onde estes lugares também passaram a ser vividos, por períodos curtos, sazonais, por um número reduzido de pessoas. (...) A ausência manifesta-se, pois, através de múltiplas e variáveis geografias, que não se confinam apenas a materialidades nem são exclusivas dos “territórios de baixa densidade”]

«[…]

As mudanças que se estão a operar no mundo que nos rodeia não podem continuar a ser lidas e interpretadas segundo os códigos vigentes. O êxodo rural, a intensificação dos fluxos migratórios e o consequente despovoamento e envelhecimento estão a atribuir novos papéis ao território e a conferir outras qualidades às assimetrias e clivagens existentes.

(…)

As clivagens pesadas e estruturantes dos mapas demográficos, económicos e sociais estão a ser retocadas por dinâmicas ligeiras, materiais mas, sobretudo, imateriais e intangíveis, que conferem outro sentido à cartografia e às fronteiras sociais, culturais e administrativas emergentes a nível local e regional. Esta nova geografia regional e local é marcada pela ausência, fruto dum despovoamento persistente, problema que só recentemente deixou de ser invisível, silenciado, vivido em segredo. Algumas experiências locais, sejam os incentivos à natalidade ou o recurso a repovoadores, ditadas mais por um voluntarismo generoso que por uma razão suportada em políticas sustentadas, acabam por não surtir os efeitos esperados.

A ausência manifesta-se, pois, através de múltiplas e variáveis geografias, que não se confinam apenas a materialidades nem são exclusivas dos “territórios de baixa densidade”. Esta Geografia das Ausências está para além do tangível, quantificável ou cartografável, embora o seu foco nos remeta para os territórios mais frágeis e vulneráveis, mais expostos ao abandono e à perda de densidade real (populacional, económica, social, cultural, etc.) e de capital simbólico. Os temas deste novo olhar da geografia são transversais e estão presentes tanto nos espaços rurais como nos urbanos; se nos primeiros o despovoamento é a ponta deste icebergue, nas cidades estão representados no abandono dos centros históricos (população, comércio, etc.), nos vazios urbanos (fábricas abandonadas, etc.), na rarefação de periferias degradadas ou na perda das antigas centralidades devido à sua migração para os centros comerciais.

As ausências não se resumem, portanto, aos espaços despovoados, embora os vazios populacionais coincidam com os territórios que somam à perda de população à de representação doutros atores, tanto económicos, sociais e culturais como institucionais, pois o estado vai-se demitindo de manter aí uma presença efetiva. Nas últimas décadas as aldeias viram partir o padre, o professor e o presidente da sua freguesia, figuras tutelares dum determinado período destas comunidades rurais, tendência que acelerou quando as cartas educativas redefiniram a rede escolar do ensino básico e o encerramento de milhares de escolas. O fecho das estações dos correios, da distribuição postal diária, do serviço público de transportes (carreiras de camionetas) ajudaram a desvitalizar vastas áreas com enormes consequências no povoamento, este processo de reestruturação acentuou a polarização, concentrando nas sedes de concelhos e rarefazendo as aldeias mais ou menos dispersas.

A cabal compreensão do Interior exige que se complemente o conhecimento técnico e estatístico com estas dinâmicas e interpretações qualitativas, mais assertivas, que levem em consideração a tensão entre presença e ausência. Muitas leituras ainda se fazem exclusivamente em função dum paradigma do espaço, quando os territórios e o povoamento eram ocupados, em permanência. Entre tanto a situação mudou, estamos num novo paradigma do tempo, onde estes lugares também passaram a ser vividos, por períodos curtos, sazonais, por um número reduzido de pessoas.

Esta apreciação é a que permite interpretar certas dissonâncias que detetamos nestes espaços vazios, onde aldeias relativamente reabilitadas, no meio dum povoamento aparentemente moribundo e abandonado. Este sinal de alguma vitalidade, aparentemente inexplicável, contrasta com o retrato negro obtido pelos diagnósticos técnicos. Estes sinais de vida, embora leves, episódicos e temporários, que é possível captar quando se percorrem alguns destes lugares não é consonante com a análise fria das estatísticas. A linguagem dura e fria, dos números, que aponta para um cenário negro, não coincide com estes sinais de esperança, divergência que só se explica à luz duma qualquer relação que os ausentes insistem em manter com as suas origens. Pode ser descontínua no tempo e representar apenas uma ocupação ocasional do espaço, motivada por razões subjetivas, porventura emocionais e afetivas, explicadas por intangibilidades que se situam à margem de qualquer lógica económica. É esta corrente de afetos que explica a deslocação temporária e periódica às origens, essas pequenas pátrias a que se fica perenemente ligado por laços indizíveis, traços indeléveis que explicam uma capacidade atrativa que tem sido sistematicamente negligenciada neste tipo de análises.

As residências secundárias e algumas microunidades de turismo rural ajudam a compor um quadro onde o excesso de habitações é manifestamente superior às reais necessidades destes lugares, facto que constitui uma das poucas varáveis positivas desta equação. Este importante ativo dos “territórios de baixa densidade” devia merecer mais atenção por representar um potencial inexplorado cuja rendibilização precisa ser potenciada em termos individuais e coletivos. A cartografia ainda não inclui estes sinais pois só mapeia os elementos físicos presentes no território e remete para a penumbra aquelas efémeras presenças nestes lugares de ausência. A impossibilidade de as incluir nas suas legendas estas dimensões imateriais, mais fluidas e imprecisas, faz com que apenas tenham representação os elementos materiais e físicos, mais palpáveis e facilmente identificados. Por esta razão, a Geografia das Ausências está na contingência de não ter mapas que testemunhem as mudanças qualitativas ou a valorização que são introduzidas no território por estas fugazes presenças dos ausentes. A nova cartografia regional e local resultante das mudanças físicas e qualitativas que se estão a operar carecem de outras legendas e novas gramáticas interpretativas para evitar cair nas tradicionais interpretações maniqueístas, simplistas e redutoras.

Os problemas em presença não são devidamente interpretados e muito menos superados sem a assunção de algumas evidências (p. ex. a persistência de perda de população), diagnósticos mais assertivos que suportem perspetivas inovadoras que levem à definição de políticas e ações que ataquem na raiz as causas do problema. A coexistência daquelas tensões, neste espaço e neste tempo, implica aproveitar complementaridades e a criatividade latente que estes territórios ainda encerram sem cair num jogo, de resultado nulo, disputado, apenas e só, entre luz e sombra, claro e escuro, dúvidas e certezas, acertos e enganos, dogmatismos e heterodoxias. A situação a que se chegou obriga a congregar esforços, vontades, cumplicidades, afetos, revisitar instrumentos e políticas aplicadas no passado para renovar com pragmatismo, intervenções que se baseiam em discursos que, usando e abusando de termos como redes, parcerias, sinergias, etc., banalizam tais conceitos e esgotam os respetivos conteúdos.

À dificuldade de (re)interpretar as novas qualidades que os territórios estão a assumir junta-se a de lidar com o vazio que alastra, invadindo espaços que são incorporados neste “sertão” que se continua a expandir. Para além do preto e do branco é necessário um novo paradigma que norteie a investigação e a ação, que permita rasgar um novo olhar mais positivo sobre estas dinâmicas e que promova as amenidades que estes territórios precisam. Reverter o ciclo vicioso em que mergulharam estes territórios também passa pela assunção, duma cultura territorial renovada, duma nova geografia, sempre implícita em qualquer instrumento consequente de intervenção setorial ou territorial orientada para responder aos efetivos problemas dos espaços mais débeis e deprimidos. Procurar explicações para o que está a acontecer não se pode restringir ao velho paradigma da ocupação física e permanente do território, pois mudamos para um novo paradigma do tempo em que fluxos, processos e dinâmicas estão a acontecer no quadro de novas relações espaço-tempo.

[…]»

Rui Jacinto. Calcanhar do mundo: da geografia das ausências à geografia da esperança. Praça Velha – Revista Cultural da cidade da Guarda, Ano XVII | N.º35 | 1ª Série | novembro 2015. pp 243-260.

Publicado por Fernando Delgado às 00:25
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Patilhar
Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Galerias ripícolas

Estruturação do espaço. Galeria ripícola no incêndio de Pedrógão

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Publicado por Fernando Delgado às 23:27
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Patilhar
Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.

Publicado por Fernando Delgado às 23:26
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Patilhar
Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

A case of you

Esta interpretação da canção de Joni Mitchell é deliciosa... O "miudo" tem talento! 

 

«A case of you

Just before our love got lost you said
I am as constant as a northern star and I said,
Constantly in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be in the bar

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice

Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine 'cause
Part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I would still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours, she knew your life
She knew your devils and your deeds and she said
"Go to him
stay with him if you can
But be prepared to bleed"

Oh but you are in my blood you're my holy wine
You're so bitter
bitter and so sweet oh
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I would still be on my feet
hmm»

 

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Patilhar
Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Assimetrias

A PORDATA é um sítio com dados estatísticos importantes, mas também com formas gráficas inovadoras, que permitem uma visualização muito rápida desses dados. Os mapas distorcidos (mapas que mostram os valores do indicador escolhido alterando a área de cada território em proporção da importância do indicador em relação aos outros territórios) são muito curiosos, transformando os territórios escolhidos em autênticos monstros ou reduzindo-os a nada.

Nas imagens abaixo estão dois exemplos, mostrando-se o mapa distorcido e o mapa normal: o primeiro relativo ao poder de compra per capita e o segundo relativo à densidade populacional por Km2, ambos ao nível de concelho, com a vantagem destes mapas serem construídos pelo utilizador em função dos indicadores que escolher.

É evidente que estes dados sem uma explicação e um enquadramento rigorosos são uma abstracção inútil, mas sem eles nenhuma tentativa de compreensão da realidade faz sentido. Só por isto vale a pena uma visita regular a este site.

1. Poder de compra per capita

Poder compra per capita

2. Densidade populacional (população residente por Km2)

 Poder compra per capita_01

 

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Patilhar
Domingo, 23 de Abril de 2017

J. Fanha

A força das palavras ditas!

 

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Patilhar
Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

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Terça-feira, 21 de Março de 2017

«o pregador de verdades dele»

Dijsselbloem.jpg

«O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, acusou o Sul da Europa de desperdício de dinheiro em "copos e mulheres", durante a crise que conduziu aos resgate financeiro de países como Portugal, Grécia ou Espanha».

- notícia do dia -

 

... meu caro Dijsselbloem (que raio de nome te deram...), hoje é o dia mundial da poesia e deixo-te aqui um poema de um tal Alberto Caeiro (não sabes quem é, pois não?!...) para que, na próxima vez que falares dos pobres do sul, aos "copos" e às "mulheres" acrescentes a poesia - nunca perceberás porquê, é um segredo só nosso!...

 

«Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
 
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!
 
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
 
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?»

 

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), Poemas Inconjuntos. Ontem o pregador de verdades dele.

 
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

Belos dias

Entre um twit e uma conferência de imprensa (o twit sobre o que não disse na conferência de imprensa e a conferência de imprensa como ponto de partida para um novo twit...), onde tudo o que diz e escreve é absurdo, Trump vai compondo uma figura caricata que faz as delícias de qualquer humorista - há uns programas de tv's americanas, na SICN, que vale a pena ver...

Cavaco publicou um livro, um livro escrito por ele, com muitas páginas (consta que José Rodrigues dos Santos decidiu adiar a publicação de um novo volume para lhe acrescentar mais umas centenas de páginas...) Quem bom, que felizes estamos!

Marcelo já chegou à dezena de milhões de selfies. Parece que já não há nenhum português sem uma foto, emoldurada na sala, com o presidente. Do sofá desbotado, toda a família olha enlevada para as molduras (sim, no plural - uma com o avô, outra com a mãe e ainda outra com a filha - apesar das famílias portuguesas serem cada vez mais pequenas) mesmo ao lado da televisão, enquanto o Goucha, a cores e ao vivo, parece embrulhado num casaco com um padrão de colchão primaveril...

Centeno tem medo de dizer que mentiu! Não há ninguém que lhe diga que a mentira em política é uma virtude?

Que merda de mundo este!

 

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Patilhar
Sábado, 28 de Janeiro de 2017

A Gente Vai Continuar

O tempo em que as canções bastam...

 

«Todos nós pagamos por tudo o que usamos

o sistema é antigo e não poupa ninguém

somos todos escravos do que precisamos

reduz as necessidades se queres passar bem

que a dependência é uma besta

que dá cabo do desejo

e a liberdade é uma maluca

que sabe quanto vale um beijo»

 

«Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
o que lá vai já deu o que tinha a dar
quem ganhou, ganhou e usou-se disso
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
e enquanto alguns fazem figura
outros sucumbem à batota
chega aonde tu quiseres
mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
o sistema é antigo e não poupa ninguém
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar...»

Jorge Palma - A gente vai continuar

 

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Talamou

Do Papalagui, à atenção da "nossa faladura" no Baságueda

«O gajo da américa é um pouco talamou»

 

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Domingo, 25 de Dezembro de 2016

Dylon

Para os que ainda não perceberam o Nobel de Dylon, aqui ficam 3 versões de uma das suas canções emblemáticas, com enquadramentos improváveis para um Nobel da literatura...  

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Make you feel my love
 
«When the rain
Is blowing in your face
And the whole world
Is on your case
I could offer you
A warm embrace
To make you feel my love
 
When the evening shadows
And the stars appear
And there is no one there
To dry your tears
I could hold you
For a million years
To make you feel my love
 
I know you
Haven't made
Your mind up yet
But I would never
Do you wrong
I've known it
From the moment
That we met
No doubt in my mind

Where you belong
I'd go hungry
I'd go black and blue
I'd go crawling
Down the avenue
No, there's nothing
That I wouldn't do
To make you feel my love
 
The storms are raging
On the rolling sea
And on the highway of regret
Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing
Like me yet
 
I could make you happy
Make your dreams come true
Nothing that I wouldn't do
Go to the ends
Of the Earth for you
To make you feel my love»
 
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Sábado, 17 de Dezembro de 2016

«A realidade é uma opinião»

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[...] No fundo passamos a vida, em Portugal, a discutir a gerrilha orçamental..., eu acho que era importante começar-mos a discutir a paisagem mais vasta... A questão fundamental é esta: a UE e a Zona Euro, como estão, têm alguma chance de chegarem incólumes até final de 2017? ... E esta é uma questão central, e esta é uma quetão política e é uma questão financeira, mas também uma questão de saber como é que nós podemos começar a falar francamente..., é muito curioso..., nós criticamos os populistas - o populismo define-se fundamentalmente por uma tese: os populistas são aqueles que acreditam que a realidade é uma opinião. E, portanto, as opiniões podem ser mudadas... O Sr. Trump considera que as alterações climáticas não existem, porquê?, porque são uma opinião! [...]»

Viriato Soromenho-Marques, O Princípio da Incerteza, RTP 3, 17.12.2016.

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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

«Human»

Sobre este filme-documentário, a RTP descreve-o como "uma experiência sensível sobre a comunidade global mas também sobre o indivíduo. Por guerras, desigualdades, discriminações, mas também amor, família, Human confronta-nos com a realidade e a diversidade da nossa condição humana. Depoimentos mostram a empatia e a solidariedade de que somos capazes."

Como sempre, falta ali muita coisa, mas vale a pena ver (também disponível no youtube).

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«Quando não temos mais que comer, vamos procurar grãos de arroz nos buracos dos ratos. Quando encontramos alguns, colocamos num cesto e voltamos para casa. No dia seguinte cozinhamos o arroz e vamos procurar mais. Deus tem o coração bom. Ele protege-nos e dá-nos tudo. Se ele me vê a procurar nos buracos, acabo sempre por achar grãos»

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«A rua é uma escola muito dura...»

«A pobreza é um estado no qual me encontro actualmente. Mas pelo facto de viver assim diariamente, não chego a gostar, mas habituo-me, simplesmente. A pobreza é um estado duradouro. E para muitos. Para gente demais!»

 «Eu gostava de perguntar que diabo faço aqui. Porque não posso estar aí. Vamos trocar de lugar. Vamos! Você vem para aqui e vive como eu, e eu vou para aí e vivo como você. A gente se encontra no meio, no Equador e joga uma partida de golfe.»

 «Posso fazer muitas coisas. Sem pressa.»

«Sei que não devia sorrir..., mas sinto-me muito bem, livre!»

Human_10.jpg

 

 

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Sábado, 12 de Novembro de 2016

Outono

IMG_9329.jpg

Ribeira de Penafacão (Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 0,4 s; f/6,3; ISO 100; 48 mm)

 

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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016

MEC sobre Trump

Uma forma diferente de interpretar a realidade (Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton):

 

«Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contámos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicaçã o social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.»

Miguel Esteves Cardoso. É amarga, mas justa, a lição que Donald Trump acabou de nos dar. Público, 09.11.2016.

 

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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016

À espera de Godot

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Hillary ou Trump? E eu aqui à espera...

 

Será que quero mesmo esperar para saber ou apenas mergulhar neste vazio, neste esperar por nada, sendo este nada - as  torrentes de palavras na televisão - tudo o que existe?

 

Como na história de Samuel Beckett, Godot nunca mais chega...

Que se lixe!

 

Depois há a rocha e a planta em flor (na Foz do Cobrão, uma espécie de derrame apocalíptico de pedra sobre o rio ocreza...) que serve para dar sentido ao medo que nos estremece quando não dominamos o sentido das coisas.

 

Esta rocha e a planta florida são tudo - o céu é apenas uma encenação do vazio, mesmo que tentemos dar-lhe espaço e tempo e vida, e todas aquelas coisas que desconhecemos e imaginamos como reais e que ingloriamente insistimos em compreender.

 

E Godot nunca mais chega!...

Hillary ou Trump?

 

(Foz do Cobrão - Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/500 s; f/16; ISO 320; 59 mm)

 

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Domingo, 9 de Outubro de 2016

De Niro, sem maquilhagem

 

«I mean he’s so blatantly stupid. He’s a punk, he’s a dog, he’s a pig, he’s a con, a bullshit artist, a mutt who doesn’t know what he’s talking about, doesn’t do his homework, doesn’t care, thinks he’s gaming society, doesn’t pay his taxes.

He’s an idiot.

Colin Powell said it best: He’s a national disaster. He’s an embarrassment to this country.

It makes me so angry that this country has gotten to this point that this fool, this bozo, has wound up where he has. He talks how he wants to punch people in the face?

Well, I’d like to punch him in the face. This is somebody that we want for president? I don’t think so.

What I care about is the direction of this country, and what I’m very, very worried about is that it might go in the wrong direction with someone like Donald Trump. If you care about your future, vote for it.»

- Robert De Niro -

No comments!

 

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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2016

Guterres

Orgulhoso de Guterres (há pouquíssimas personalidades cujas qualidades públicas me fazem sentir orgulhoso de ser português...), nada como algum silêncio para ouvir Maria João Pires interpretando Chopin (sem qualquer associação racional e apenas como reacção a uma espécie de ladainha enfadonha nas televisões sobre esta eleição para secretário-geral da ONU).

Diz-me a "vida" que só somos reconhecidos como "bons" ("excepcional", diz o presidente, rarefazendo o universo de hipóteses...) em duas ocasiões: na morte, por deferência dos amigos, ou quando fazemos algo de transcendente, por interferência dos media! É óbvio que só a primeira hipótese está ao alcance de todos...

 

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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Arturo Pérez-Reverte

É sempre com um pé atrás que compro livros de jornalistas, embora admita que se trata de um preconceito construído à volta dos escritos de um jornalista-escritor português que insiste em piscar-me o olho no fim de cada telejornal...

Apesar das 512 páginas, "Homens Bons" permitem limpar um pouco aquele preconceito... O texto das duas primeiras páginas, uma espécie de resumo ou de enquadramento da narrativa, parece-me confundir-se com o subtítulo a bold de um artigo de opinião:

  

     «Imaginar um duelo ao amanhecer, na Paris de finais do século XVIII, não é difícil. Basta ter lido alguns livros e visto uns quantos filmes. Contá-lo por escrito é algo mais complexo. E utilizá-lo para o arranque de um romance tem os seus riscos. A questão é conseguir que o leitor veja o que o autor vê, ou imagina. Converter-se em olhos alheios, os do leitor, e desaparecer discretamente para que seja ele a entender-se com a história que lhe narraram. A destas péginas precisa de um prado coberto pela geada da manhã e de uma luz difusa, acizentada, para a qual seria útil recorrer a uma neblina suave, não muito espessa, daquela que brotava frequentemente nos bosques dos arredores da capital francesa – hoje muitos desses arvoredos desapareceram ou estão incorporados nela – com a primeira claridade do dia.

     A cena precisa também de umas personagens. Na luz incerta do sol que ainda não desponta devem notar-se, um pouco esbatidas entre a bruma, as silhuetas de dois homens. Um pouco mais retiradas, debaixo das árvores, junto a três carruagens ali paradas, há outras figuras humanas, masculinas, envoltas em capas e com chapéus de três bicos enfiados sobre o disfarce. São meia dúzia, mas não interessam para a cena principal; por isso podemos prescindir deles por agora. O que deve atrair a nossa atenção são os dois homens imóveis em frente um do outro, de pé sobre a erva húmida do prado. Vestem calções justos e estão em mangas de camisa. Um é magro, alto para a época, e tem o cabelo grisalho apanhado num rabicho curto sobre a nuca. O outro é de estatura média e tem o cabelo encaracolado nas têmporas, emproado como era próprio da moda mais requintada do seu tempo. Nenhum dos dois parece novo, ainda que estejamos a demasiada distância para apreciar isso. Portanto, aproximemo-nos um pouco deles. Observemo-los melhor.

     O que cada um segura na mão é uma espada. Ou uma espada parecida com um florete, se repararmos nos pormenores. O assunto, portanto, parece sério. Grave. Os dois homens estão a três passos um do outro, ainda imóveis, olhando-se com atenção. Quase pensativos. Todos concentrados no que vai acontecer. Têm os braços caídos ao longo do corpo e as pontas de aço roçam na erva do chão, coberta de geada. O mais baixo, que de perto também parece mais novo, tem uma expressão altaneira, talvez teatralmente desdenhosa. Dir-se-ia que, embora estude o seu adversário, está à espera de mostrar uma figurabem composta aos que o observam dos limites do prado. O outro homem, mais alto e de mais idade, possui uns olhos azuis aquosos e melancólicos que aparentam ser contagiados pela humidade ambiental. À primeira impressão parece que aqueles olhos fixam o homem que tem à frente, mas se repararmos bem neles, notaremos que não é assim. Na verdade encontram-se absortos, ou distraídos. Ausentes. Talvez, se naquele momento, o homem que têm em frente mudasse de posição, aqueles homens continuassem a olhar para o mesmo lugar, indiferentes a tudo, atentos a imagens distantes que só eles conhecem.

     Do grupo reunido debaixo das árvores chega uma voz, e os dois homens que estão no prado levantam os espadins devagar. Cumprimentam-se brevemente, levando um deles a guarnição à altura do queixo, e depois põem-se em guarda. O mais baixo apoia a mão livre na anca, adotando uma elegantíssima postura de esgrima. O outro, o homem alto de olhos aquosos e curto rabicho grisalho, estende a arma e ergue a outra mão, com o braço e antebraço quase em ângulo reto, com os dedos relaxados e ligeiramente descaídos para a frente. Os ferros, ao tocarem-se com suavidade pela primeira vez, produzem um tilintar metálico que ecoa nítido, argênteo, no ar frio do amanhecer.

     Continuemos a escrever, agora. Contemos a história. Saibamos o que troxe estas personagens até aqui.»

 

Arturo Pérez-Reverte. Homens Bons. ASA, 1ª ed, pp 9-10.

 

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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Achamentos na Costa Vicentina

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Patilhar
Terça-feira, 12 de Julho de 2016

(Gente) sinistro(a)

O camarada Durão chegou ao topo!

Cervantes, acho que era Cervantes, dizia que o importante não era a partida ou a chegada, mas o caminho… Como estava enganado o pobre do Cervantes – o caminho é uma farsa, o importante é mesmo o ponto de partida e de chegada, sobretudo de chegada.

É um caminho tortuoso, sempre em frente, por cima de quem aparece? Pois, que seja – este mundo é assim mesmo. Só há um objectivo: chegar o mais alto possível (Deus que se cuide!). Só há um método: ambição sem limites (D. Sebastião, chora de raiva!)

Parabéns, camarada Durão. Que as insónias te sejam leves!

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Patilhar
Segunda-feira, 27 de Junho de 2016

«Someday this war's gonna end»

Vi Apocalypse Now pela décima vez (se calhar foram menos...) e há sempre duas sequências de imagens que arrepiam.

Procurei e descobri (afinal parece que tudo se pode descobrir no Youtube...) essas "peças" do filme e, de facto, quer a sequência de abertura do filme - To the End, dos Doors -, quer sobretudo a sequência do bombardeamento na praia, com napalm a queimar o chão, soldados a surfar as ondas (com a Cavalgada das Valquírias,  de Wagner, em fundo) e as absurdas palavras do comandante das tropas - I love the smell of napalm in the morning, para logo de seguida setenciar: someday this war's gonna end  - traduzem bem a irracionalidade da guerra e, já agora, a genialidade de Copolla.

Este é um daqueles filmes que vemos uma vez e vamos revendo... Aquela guerra, como qualquer outra, um dia acabou! Ficou uma geração cheia de coisa nenhuma...

 

 

 

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Patilhar
Sexta-feira, 24 de Junho de 2016

BREXIT (adenda)

brexit.jpe

Afinal o BREXIT ganhou!

(ai estas sondagens...)

Mas será que a couve de bruxelas perdeu mesmo?

 

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Patilhar
Quinta-feira, 23 de Junho de 2016

Brexit

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Chá.jpg

Tudo indica que a couve de bruxelas ganhou!

É o mesmo que dizer que os burocratas de Bruxelas vão cumprir o ritual do chá das cinco e, noite dentro, continuar a inundar-nos com regulamentos, directivas, regras, normas, sanções?

O problema não é a UE, é esta UE! Vai mudar alguma coisa?

O que mais me irrita é que há uns brócolos que precisam da couve de bruxelas como de pão para a boca! E adoram-na, lambuzam-se qualquer que seja a  estapafúrdia mixórdia gastronómica que lhes servem num prato de doze estrelinhas. 

Um dia hei-de escrever sobre esta fúria regulamentadora das couves de bruxelas e dos brócolos lusos - sim, elas não estão sós! - na agricultura...

 

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Patilhar
Sábado, 28 de Maio de 2016

Carla Bley

... alguns minutos do jazz de C. Bley

 

 

 

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Patilhar
Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

A Seiva da Raíz

De vez em quando convidam-me para ir "falar" a alguns sítios - não é bem um convite, é uma obrigação profissional,... - e oferecem-me coisas, sempre simbólicas, mas que às vezes são boas surpresas. Ainda não cheguei ao fim, mas "A Seiva da Raiz", um livro de contos de António Arnaut, editado pela Câmara Municipal de Penela, que me foi oferecido num Seminário neste concelho, é uma boa descoberta.

Alguns textos lembram-me Miguel Torga, sem a intensidade telúrica e etnográfica deste, mas com o mesmo desespero humanista. "A Mariana" ou o "Alma Grande" só podem ser de Torga, mas "Os dois barbeiros" de Arnaut lembram-me esse tropismo angustiado no Portugal profundo.

Aqui ficam alguns excertos desse conto:

 

«Os Dois Barbeiros

(...)

     Nas aldeias perdidas no fundo das montanhas, onde o tempo parou na pedra seca das casas e nos hábitos estereotipados por séculos de abandono, a paz bucólica que tanto impressiona os visitantes citadinos, não assenta apenas na harmonia dos homens com a natureza, mas na harmonia conjugada dos habitantes. Foi esta harmonia que exigiu, por razões de sobrevivência, a repartição dos ofícios principais e a consequente eliminação de concorrência. Por isso existiu sempre em Valmatos um único alfaiate, um único sapateiro, uma única taberna e um único barbeiro.

(...)

     Ora, um dia, o destino ou o acaso - nunca se sabe que força nos guia os passos - fê-los encontrar numa curva recatada do caminho, a coberto da curiosidade da aldeia. Ao vê-la aproximar-se, com um molho de erva à cabeça e aquele andar saracoteado que tanto o perturbava, um pensamento temerário percorreu-lhe o corpo como um formigueiro. Refreou o passo e aventurou-se a sondar o passado:

     - Bons olhos te vejam, rapariga!

     Ela parou surpreendida, mas não se deu por achada:

     - E a ti também, Alfredo!

     Aquela voz alegre, a soletrar de novo o seu nome, sonora e cantante como um hino à vida, acicatou-lhe o sangue e deu corpo à ideia que tanto o atormentava. Que melhor vingança do que fazer ao outro o mesmo que lhe fizera?!

     - Sabes, Josefina, continuo a gostar de ti...

     Ela hesitou. Parecia tolhida, a respiração ofegante, os olhos pregados nos trilhos do caminho, as mãos nervosas a tactearem o carrego.

     - Vou dizer-te, Alfredo, mas que fique só entre nós, também ainda me lembro de ti...

     - Podíamos combinar um encontro para falarmos mais à vontade - sugeriu ele com voz alanceada por pensamentos contraditórios, ou justapostos, o ódio e o amor a fazerem de pedras irmãs da mesma muralha da vida.

     - Vai na quinta-feira, de madrugada, à minha sorte das Chãs - respirou fundo, a despedir-se e a vincar o segredo da mensagem - é o meu dia de rega, estaremos à vontade...

(...)

     Na quinta-feira de madrugada, mal a claridade indecisa acariciou a janela do quarto e sorriu nos seus olhos ansiosos, Alfredo levantou-se, vestiu o fato domingueiro e partiu apara a sua aventura com a emoção incontida de um adolescente que se preparasse para uma grande viagem. A viagem do Alfredo era curta, porque as Chãs ficavam a meia hora de longada, pelo vale, junto à ribeira, num sítio ermo, propício a todos os encontros. O barbeiro atravessou a aldeia, ainda adormecida, meteu pelo trilho da encosta e quando estava a meio caminho lembrou-se que não tinha trazido a bicicleta, o que sempre fazia quando ia à vila, a duas léguas de distância. Parou, a equacionar o dilema, a mulher podia desconfiar, pois não era natural que ele fizesse a suposta viagem a pé. Era alta madrugada, o sol nem sequer mandara ainda um raio extraviado a anunciar a sua chegada do outro lado da montanha. Fez um cigarro, vagarosamente, o pensamento dividido como o tempo, também indeciso, entre a fronteira da noite e do dia, e resolveu voltar a casa em passo acelerado, para trazer a bicicleta e reforçar o alibi. A aldeia dormia ainda. Só um cão insone se lhe atravessou no caminho, a ladriscar de tédio.

Alcançou a casa, no coice do lugar, entre pinheiros ainda sonolentos. Abriu cautelosamente a cancela e aporta da loja, onde estava o velocípede. Sentiu vozes abafadas, um gemer de feno acordado, o coração deu-lhe um baque, acendeu um fósforo, e à luz frouxa dos seus olhos incrédulos, viu a mulher descomposta entre os braços roliços do Petinga.»

A Seiva da Raiz. Contos. António Arnaut. Ed. da Câmara Municipal de Palmela, 2002, pp 73-80.

 

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Patilhar
Sexta-feira, 13 de Maio de 2016

Regresso à «Tabacaria»

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu

(come chocolates, pequena; come chocolates!)

 

«Tabacaria

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.»

Tabacaria. Álvaro de Campos.

 

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Patilhar
Segunda-feira, 25 de Abril de 2016

Abril

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Rios que vão dar ao mar/ Deixem meus olhos secar/ Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/ Que eu não volto a cantar»
(Todos sabíamos que o Zeca já não estava bem... Ouvimos as primeiras canções e..., pronto, ele conseguiu! Mas estes versos, da Balada de Outono, soaram-me um pouco a despedida... Foi nessa noite que percebi que nem sempre se vai a um concerto para simplesmente ouvir música - a celebração da vida também pode acontecer em lugares improváveis, como o Coliseu...)

 

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Patilhar
Sexta-feira, 8 de Abril de 2016

... às portas do casino

No Le Monde: «Panama papers: comprendre le système offshore en 3 minutes»

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:10
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Patilhar
Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

a força da canção ao vivo...

Mesmo para uma gravação pirata, é péssima, mas suficiente para sentir a força que só uma interpretação ao vivo pode revelar, da "velha" canção de Alain Oulman e Ary dos Santos. Vale a pena ouver esta versão de Alfama na voz inspirada de Carminho.

 

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Patilhar
Domingo, 3 de Abril de 2016

O casino!...

«Milhões de documentos mostram como chefes de Estado, criminosos e celebridades usam paraísos fiscais para esconder dinheiro e património»

(A corrupção ao mais alto nível! Os sinais acumulam-se e um dia alguém dirá, ou todos diremos: basta!

Transcrevo na íntegra o texto do Expresso, sabendo que virão aí muitos mais textos deste género...)

expresso.jpg

 

«Fuga de informação gigante revela esquemas de crime e corrupção no mundo inteiro

Uma fuga enorme de documentos expõe companhias offshore ligadas a doze antigos e atuais líderes mundiais, e revela como pessoas próximas do presidente russo Vladimir Putin desviaram dois mil milhões de dólares através de bancos e empresas fantasma.

A fuga de informação também fornece detalhes das transações financeiras ocultas de outros 128 políticos de todo o mundo.

O acervo de 11,5 milhões de ficheiros mostra como uma indústria global de sociedades de advogados, empresas fiduciárias e grandes bancos vendem o segredo financeiro a políticos, burlões e traficantes de droga, bem como a multimilionários, celebridades e estrelas do desporto.

Estas são algumas das descobertas que resultam de uma investigação conduzida ao longo de um ano pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (International Consortium of Investigative Journalists, ICIJ), pelo jornal alemão “Süddeutsche Zeitung” e por mais de uma centena de outros órgãos de comunicação social, incluindo o Expresso.

Os ficheiros relevam a existência de empresas offshore controladas pelos primeiros-ministros da Islândia e do Paquistão, o rei da Arábia Saudita e os filhos do presidente do Azerbeijão. Incluem também pelo menos 33 pessoas e empresas que constam numa lista negra da administração norte-americana por se envolverem em negócios com os patrões da droga mexicanos, organizações terroristas como o Hezbollah ou países como a Coreia do Norte e o Irão.

Uma destas empresas forneceu combustível para os aviões que o Governo sírio usou para bombardear e matar milhares de cidadãos, de acordo com uma acusação formal feita pelas autoridades dos Estados Unidos.

"Estas descobertas mostram como as práticas danosas e criminosas estão profundamente arreigadas no mundo offshore", diz Gabriel Zucman, economista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e autor de "A Riqueza Oculta das Nações: inquérito sobre os paraísos fiscais" (editado em Portugal pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores). Zucman, que teve conhecimento dos resultados da investigação, afirma que a divulgação dos documentos deveria levar os governos a criar "sanções concretas" contra jurisdições e instituições que vendem esquemas de segredo em offshores.

Os nomes de líderes mundiais que aderiram a plataformas anti-corrupção aparecem nos documentos. Os ficheiros mencionam empresas offshore ligadas à família do presidente da China, Xi Jinping, que declarou querer combater "os exércitos da corrupção", bem como do presidente ucraniano Petro Poroshenko, que se apresenta como um reformador num país abalado por escândalos de corrupção. Os documentos contêm também novos pormenores de negócios feitos através de offshores pelo falecido pai do primeiro-ministro britânico David Cameron, um líder do movimento que quer reformar os paraísos fiscais.

Os dados da fuga de informação cobrem um período de quase 40 anos, de 1977 a finais de 2015. Permitem uma visão inédita, a partir de dentro, sobre o mundo dos regimes offshore — fornecendo um olhar do dia-a-dia, década após década, de como o dinheiro sujo fluía e ainda flui através do sistema financeiro global, alimentando o crime e espoliando as receitas fiscais de muitos Estados.

A maioria dos serviços oferecidos pela indústria offshore são legais se forem usados ao abrigo da lei. Mas os documentos mostram que bancos, sociedades de advogados e outros atores do mundo offshore evitam muitas vezes seguir os requisitos legais que existem para garantir que os seus clientes não estão envolvidos em empresas criminosas, fuga aos impostos ou corrupção política. Nalguns casos, os documentos mostram que os intermediários se protegem a si e aos seus clientes ocultando negócios suspeitos ou manipulando registos oficiais.

Os documentos tornam claro que os grandes bancos estão por detrás da criação de companhias fantasma difíceis de detetar nas Ilhas Virgens britânicas, no Panamá e outros paraísos fiscais. Os ficheiros listam mais de 15.600 empresas fictícias que os bancos criaram para clientes que querem manter escondidas as suas finanças, incluindo algumas milhares de companhias criadas pelos gigantes internacionais UBS e HSBC.

Os registos revelam um padrão de operações secretas levadas a cabo por bancos, empresas e pessoas ligadas ao líder russo Putin. Mostram empresas offshore ligadas a esta rede a movimentar dinheiro em transações que chegam aos 200 milhões de dólares de uma só vez. Pessoas próximas de Putin têm camuflado esquemas de pagamentos, alterando inclusive a data de documentos, enquanto ganham ao mesmo tempo influência no seio dos media do país e da indústria automobilística, de acordo com o que vem nos documentos.

Um porta-voz do Kremlin recusou-se a responder a questões sobre esta história. Em vez disso, veio a público a 28 de março com acusações de que o ICIJ e os seus parceiros de media estavam a preparar um “ataque informativo” contra Putin e a pessoas próximas do presidente russo.

A origem da fuga: Mossack Fonseca

Os documentos que constam desta fuga de informação — que foram revistos por uma equipa de mais de 370 jornalistas de 76 países — provêm de uma pouco conhecida, mas poderosa firma de advogados com sede no Panamá, a Mossack Fonseca, que tem filiais em Hong Kong, Miami, Zurique e em mais de 35 outros pontos do globo.

A firma é um dos maiores criadores mundiais de empresas de fachada, estruturas empresariais que podem ser usadas para esconder a propriedade de património e dinheiro. Os ficheiros internos desta sociedade de advogados que constam da fuga têm informações sobre 214.488 entidades offshore relacionadas com pessoas em mais de 200 países e territórios. O ICIJ divulgará a lista completa das empresas e pessoas a elas ligadas no início de maio.

Os dados incluem e-mails, relatórios financeiros, passaportes e registos empresariais que revelam os titulares secretos de contas bancárias e empresas em 21 jurisdições offshore — do Nevada, nos EUA, a Singapura ou às Ilhas Virgens Britânicas.

O braço da Mossack Fonseca estende-se ao tráfico ilegal de diamantes em África, ao mercado internacional de arte e a outros negócios que assentam no secretismo. A empresa ajudou membros de casas reais no Médio Oriente suficientes para encher um palácio. Permitiu a dois reis, Mohammed VI de Marrocos e Salman da Arábia Saudita, saírem para o mar em iates de luxo.

Na Islândia, os documentos mostram como o primeiro-ministro Sigmundur David Gunnlaugsson e a a sua mulher detêm secretamente uma empresa offshore que possuía milhões de dólares em obrigações do tesouro islandês durante a crise financeira islandesa.

Os ficheiros incluem um homem, condenado por lavagem de dinheiro, que afirma ter realizado uma campanha de fundos ilegal que juntou 50 mil dólares usados para pagar aos assaltantes de Watergate; 29 multimilionários da lista da “Forbes” com as 500 pessoas mais ricas do mundo; e a estrela do cinema Jackie Chan, que tem pelo menos seis empresas geridas através da Mossack Fonseca.

Tal como acontece com muitos outros clientes, não há provas de que Chan utilizou as suas empresas para fins menos próprios. Ter uma empresa num offshore não é ilegal. Para algumas transações internacionais, é uma escolha lógica.

Os documentos da Mossack Fonseca indicam, no entanto, que os clientes da firma incluem burlões, reis da droga, gente em fuga ao fisco e pelo menos um condenado por crimes sexuais. Um homem de negócios norte-americano condenado por viajar para a Rússia para ter sexo com órfãos menores de idade assinou papéis para uma empresa offshore enquanto estava preso em Nova Jersey, de acordo com os registos.

Os ficheiros contêm novos detalhes acerca de grandes escândalos que vão do mais famoso assalto ao ouro em Inglaterra até às acusações de subornos que envolvem a FIFA, a instituição que governa o futebol mundial.

Dirigentes da FIFA e Lionel Messi

Os documentos revelam que o escritório de advogados de Juan Pedro Damiani, membro da comissão de ética da FIFA, tinha relações de negócios com três homens que foram indiciados no escândalo da organização — o antigo vice-presidente da FIFA Eugenio Figueredo, bem como Hugo e Mariano Jinkis, a equipa pai-filho acusada de pagar subornos para ganhar os direitos de transmissão de eventos futebolísticos na América Latina. Os registos mostram que a sociedade de advocacia de Damiani no Uruguai representava uma empresa offshore ligada aos Jinkis e sete outras companhias ligadas a Figueredo.

Em resposta às perguntas feitas pelo ICIJ e por alguns jornais, o painel de ética da FIFA lançou uma investigação preliminar à relação de Damiani com Figueredo. Um porta-voz do comité disse que Damiani informou pela primeira vez a comissão sobre os seus laços empresariais com Figueredo a 18 de março - um dia depois de a equipa de repórteres ter enviado a Damiani perguntas relacionadas com o facto de a sua firma de advogados trabalhar para empresas ligadas ao antigo vice-presidente da FIFA.

O futebolista Lionel Messi também aparece nos documentos. Os registos mostram que Messi e o seu pai eram donos de uma empresa do Panamá: Mega Star Enterprises Inc. Isto acrescenta um novo nome à lista de empresas de fachada conhecidas por estarem ligadas a Messi. Os seus esquemas de offshore são atualmente alvo de um inquérito sobre evasão fiscal em Espanha.

Sejam famosos ou desconhecidos, a Mossack Fonseca trabalha agressivamente para proteger os segredos dos seus clientes. No Nevada, segundo os registos, a firma tentou proteger-se e proteger os seus clientes do embate de uma ação judicial no Tribunal Distrital dos Estados Unidos, retirando os arquivos em papel que tinha na filial de Las Vegas e apagando os registos eletrónicos de computadores e telemóveis.

Os ficheiros mostram que a empresa se oferece regularmente para antecipar as datas de documentos para ajudar os seus clientes a tirarem vantagens nos seus negócios financeiros. Isto era tão vulgar, que em 2007 uma troca de e-mails mostra funcionários da empresa a falarem sobre estabelecer uma tabela de preços — os clientes pagariam 8,75 dólares por cada mês que um documento empresarial tivesse de recuar no tempo.

Numa resposta escrita às perguntas do ICIJ e dos seus parceiros de media, a empresa diz que “não favorece nem promove atos ilegais”. “As vossas alegações de que fornecemos aos acionistas estruturas supostamente destinadas a esconder a identidade dos verdadeiros donos são completamente falsas e sem fundamentação.”

A empresa acrescenta que o atraso de datas de documentos "é uma prática aceite e bem fundada" que é "comum na nossa indústria, e o seu objetivo não é encobrir ou esconder atos ilícitos".

A empresa diz que não pode responder a perguntas sobre clientes específicos por causa da sua obrigação de manter a confidencialidade.

O co-fundador da firma jurídica, Ramón Fonseca, disse numa recente entrevista à televisão panamiana que a empresa não tem responsabilidade sobre o que os clientes fazem com as empresas offshore que a firma vende. Compara a sua sociedade de advogados a um fabricante automóvel cuja responsabilidade termina quando um carro é produzido. Culpar a Mossack Fonseca pelo que as pessoas fazem com as suas empresas é como culpar um construtor automóvel “se o carro for usado num assalto a um banco”, afirmou.

Sob escrutínio

Até há pouco tempo, a Mossack Fonseca trabalhou largamente na sombra. Mas passou a estar sob crescente escrutínio quando houve governos que obtiveram fugas parciais dos documentos internos da firma e as autoridades da Alemanha e do Brasil começaram a investigar as suas práticas.

Em fevereiro de 2015, o jornal “Süddeutsche Zeitung” relatava que as autoridades alemãs tinham lançado uma série de inquéritos tendo como alvo um dos maiores bancos do país, o Commerzbank, numa investigação por fraude fiscal que pode desembocar em acusações de crime contra funcionários da Mossack Fonseca.

No Brasil, a sociedade de advogados tornou-se um alvo na Operação Lava Jato, que levou a acusações judiciais contra políticos de relevo e a uma investigação ao popular ex-presidente Lula da Silva. O escândalo ameaça atingir a atual presidente Dilma Rousseff.

PILAR OLIVARES

Em janeiro, os procuradores brasileiros classificaram a Mossack Fonseca como uma "grande lavadora de dinheiro" e anunciaram que tinham aberto processos-crime contra cinco funcionários dos escritórios brasileiros da firma pelo seu papel no escândalo. A Mossack Fonseca nega quaisquer práticas ilegais no Brasil.

As revelações encontradas nos ficheiros da firma aumentam de forma significativa as anteriores fugas de registos offshore que o ICIJ e os seus parceiros dos media expuseram nos últimos quatro anos.

Na maior colaboração jornalística alguma vez empreendida, jornalistas que trabalham em mais de 25 línguas escavaram as operações internas da empresa e seguiram as pistas dos negócios secretos dos clientes da Mossack Fonseca em todo o mundo. Partilharam informação e foram atrás de pistas encontradas nos ficheiros usando registos de empresa, registos de propriedade, declarações financeiras, documentos judiciais, entrevistas com especialistas em lavagem de dinheiro e agentes da autoridade.

Repórteres do “Süddeutsche Zeitung” obtiveram milhões de documentos de uma fonte confidencial e partilharam-nos com o ICIJ e outros parceiros. Os media envolvidos na colaboração não pagaram pelos documentos.

Antes de o “Süddeutsche Zeitung” ter tido acesso à fuga, as autoridades fiscais alemãs compraram um pequeno conjunto de documentos da Mossack Fonseca a um denunciante, um "whistleblower", ação que espoletou as operações de buscas realizadas no início de 2015 na Alemanha. Este pequeno conjunto de ficheiros tem sido desde então oferecido a autoridades fiscais do Reino Unido, Estados Unidos e outros países, segundo fontes bem informadas.

Este conjunto mais vasto de documentos, entretanto obtido pelos jornais, oferece mais que um retrato simples dos métodos de negócio usados por uma sociedade advogados ou um catálogo de clientes duvidosos. Permite uma visão ampla de uma indústria que tem trabalhado para manter ocultas as suas práticas — e dá pistas para perceber porque têm falhado os esforços para reformar o sistema.

A história da Mossack Fonseca é, em muitos aspetos, a história do próprio sistema de offshores.

Crime do século

Na madrugada de 26 de novembro de 1983, seis ladrões penetraram no armazém da Brink’s-Mat no aeroporto londrino de Heathrow. Os assaltantes amarraram os seguranças, regaram-nos com gasolina, acenderam um fósforo e ameaçaram-nos que iam largar fogo a menos que eles abrissem o cofre do armazém. Lá dentro, os assaltantes encontraram quase sete mil barras de ouro, diamantes e dinheiro.

"Muito obrigado pela vossa ajuda. Tenham um bom Natal", disse um dos meliantes à saída.

Os media britânicos chamaram ao golpe o "Crime do Século". Grande parte do saque, incluindo o dinheiro proveniente do ouro que foi derretido e vendido, nunca foi recuperado. O destino do dinheiro tornou-se um mistério que continua a fascinar os estudiosos do submundo inglês.

Agora, documentos encontrados entre os ficheiros da Mossack Fonseca revelam que a empresa e o seu co-fundador Jürgen Mossack podem ter ajudado os autores do assalto a manter os despojos longe da vista das autoridades, ao protegerem uma empresa ligada a Gordon Parry, um negociante de Londres que lavou o dinheiro aos cérebros do assalto ao Brink’s-Mat.

Quinze meses depois do assalto, segundo os registos, a Mossack Fonseca criou no Panamá uma empresa de fachada chamada Feberion Inc. para Gordon Parry. Jürgen Mossack era um dos três diretores "nomeados" da firma, um termo usado nesta indústria para os figurantes que controlam a companhia no papel, mas não têm de facto nenhum poder sobre as suas atividades.

Um memorando interno escrito por Mossack mostra que ele tinha conhecimento em 1986 que a empresa estava "aparentemente envolvida na gestão de dinheiro do famoso roubo do Brink’s-Mat em Londres. A própria empresa não tinha sido utilizada ilegalmente, mas podia dar-se o caso de ter investido dinheiro através de contas bancárias e propriedades com origens ilegítimas.”

Os registos da Mossack Fonseca de 1987 tornam claro que Parry estava por detrás da Feberion. Em vez de auxiliar as autoridades a terem acesso aos bens da Feberion, a sociedade de advogados deu passos no sentido de evitar que a polícia do Reino Unido tivesse acesso à empresa, de acordo com os documentos encontrados.

Depois de a polícia ter obtido os dois certificados (com as acções ao portador) que controlavam a propriedade da empresa, a Mossack Fonseca arranjou maneira de a Feberion emitir mais 98 novas ações, manobra que parece ter retirado efetivamente o controlo da Feberion das mãos dos investigadores, revelam os documentos.

Só em 1995 — três anos depois de Parry ter sido condenado a dez anos de prisão pelo seu papel no golpe do século — é que a Mossack Fonseca encerrou a sua relação de negócios com a Feberion.

Um porta-voz da sociedade de advogados disse que quaisquer alegações de que a firma serviu de escudo aos assaltantes do Brink’s-Mat "são inteiramente falsas". O porta-voz acrescentou que Jürgen Mossack “nunca teve quaisquer negócios" com Parry e nunca foi contactado pela polícia acerca do caso.

A defesa encetada pela Mossack Fonseca à firma de Parry ilustra até onde vão os operacionais das offshores para servir os interesses dos seus clientes.

Os dois fundadores da Mossack

O sistema offshore assenta numa crescente indústria global de banqueiros, advogados, contabilistas e outros intermediários que trabalham em conjunto para proteger os segredos dos clientes. Estes especialistas em secretismo usam companhias anónimas, trusts e outras entidades-fantasma para criar estruturas complexas que podem ser usadas para disfarçar as origens de dinheiro sujo.

“Eles são a gasolina que faz trabalhar o motor”, diz Robert Mazur, um antigo agente dos narcóticos nos Estados Unidos e autor de “O Infiltrado: a minha vida secreta dentro dos bancos sujos por detrás do cartel de Medellín de Pablo Escobar”. “São uma peça extraordinariamente importante da fórmula de sucesso das organizações criminosas.”

A Mossack Fonseca disse ao ICIJ que segue “tanto a letra como o espírito da lei”. “Porque o fazemos, nunca fomos nem uma vez, em quase 40 anos de operação, acusados de crimes.”

Os homens que fundaram a firma há décadas — e continuam a ser hoje os seus principais sócios — são figuras bem conhecidas na sociedade e na política do Panamá.

Jürgen Mossack é um imigrante alemão cujo pai procurou uma nova vida no Panamá para a família depois de ter servido nas Waffen-SS de Hitler. Ramón Fonseca é um romancista premiado e que nos últimos anos foi conselheiro do presidente do Panamá. Tirou uma licença sem vencimento como conselheiro presidencial em março depois de a sua empresa se ver implicada no escândalo do Brasil, e o ICIJ e seus parceiros começarem a levantar questões acerca das práticas usadas pela sua sociedade.

Da sua base no Panamá, uma das zonas de topo da indústria do segredo financeiro, a Mossack Fonseca semeia empresas anónimas não só incorporadas neste país, mas também nas Ilhas Virgens Britânicas e noutros paraísos fiscais.

A firma tem trabalhado de perto com grandes bancos e grandes firmas de advogados em locais como a Holanda, o México, Estados Unidos e Suíça, ajudando clientes a movimentar dinheiro ou a reduzir os seus impostos, como mostram os registos secretos.

Uma análise do ICIJ ao acervo de ficheiros apurou que mais de 500 bancos, incluindo as suas subsidiárias e filiais, trabalharam com a Mossack Fonseca desde os anos 70 para ajudar clientes a gerirem empresas offshore. A UBS criou mais de 1100 empresas offshore através da Mossack Fonseca. O HSBC e os seus associados criaram mais de 2300.

Ao todo, a Mossack Fonseca trabalhou com mais de 14 mil bancos, escritórios de advogados, criadores de empresas e outros intermediários para erguer empresas, fundações e trusts para clientes.

A Mossack Fonseca afirma que estes intermediários são os seus verdadeiros clientes, não os eventuais clientes que usam os offshores. A firma diz que estes intermediários fornecem camadas adicionais de supervisão para aceitar novos clientes. Quanto aos seus procedimentos, diz que muitas vezes excedem “as regras e padrões existentes, aos quais nós e outros estamos ligados”.

Nos seus esforços para proteger a Feberion Inc., a empresa de fachada ligada ao assalto ao ouro na Brink’s-Mat, a Mossack Fonseca usou os serviços de uma firma sediada no Panamá, a Chartered Management Company, dirigida por Gilbert R. J. Straub, um expatriado americano que desempenhou um papel de figurante no escândalo do Watergate.

Em 1987, quando a polícia britânica estava a investigar a empresa de fachada, Jürgen Mossack e outros diretores da Feberion demitiram-se, tendo ficado assente que seriam substituídos por novos diretores nomeados pela Chartered Management de Straub, indicam os ficheiros secretos.

Straub acabou por ser apanhado numa operação das autoridades americanas antidroga que não estava relacionada com o caso Brink’s-Mat, segundo Mazur, o antigo agente infiltrado. Mazur construiu o caso que levou Straub a dar-se como culpado de lavagem de dinheiro em 1995. Segundo o antigo agente, Straub tentou demonstrar a sua boa fé descrevendo como encaminhou ilegalmente dinheiro para a campanha que reelegeu Nixon em 1972.

Segredos e vítimas

O pai de Nick Kgopa morreu quando o rapaz tinha 14 anos. Os colegas que trabalhavam com ele numa mina de ouro no norte da África do Sul disseram que tinha sido morto por exposição a elementos químicos letais. Nick, a mãe e o irmão mais novo, que é surdo, sobreviveram apenas graças aos cheques mensais de um fundo para viúvas e órfãos de mineiros. Um dia, os pagamentos pararam.

A família de Nick era uma de muitas que sofreram por causa de uma fraude num investimento de 60 milhões de dólares, levada a cabo por homens de negócios sul-africanos. A acusação alegava que um grupo de indivíduos ligados a uma empresa de gestão de títulos, a Fidentia, tinha conspirado para sacar milhões de fundos de investimento — incluindo os subsídios por morte dos mineiros destinados a 46 mil viúvas e órfãos.

Documentos da Mossack Fonseca mostram que pelo menos dois dos homens envolvidos na fraude usaram a sociedade de advogados do Panamá para criar empresas offshore — e que a Mossack Fonseca estava desejosa de ajudar um dos vigaristas a proteger o seu dinheiro, mesmo depois de as autoridades o ligarem publicamente ao escândalo.

Burlões e outros autores de fraudes que prejudicaram milhares de vítimas usam frequentemente estruturas offshore para conduzir os seus esquemas ou esconder as suas receitas. O caso Fidentia não é a única grande fraude que aparece nos ficheiros dos clientes da Mossack Fonseca.

Na Indonésia, por exemplo, pequenos investidores alegam que uma empresa criada pela Mossack Fonseca nas Ilhas Virgens Britânicas foi usada para roubar 3.500 pessoas num montante de pelo menos 150 milhões de dólares. “Nós precisamos desse dinheiro para pagar a escola do nosso filho em Abril”, diz um investidor indonésio num e-mail enviado à Mossack Fonseca, em abril de 2007, depois dos pagamentos pararem. “Pode dar-nos alguma sugestão sobre o que podemos fazer?” — perguntou o investidor num inglês macarrónico, depois de ter visto a Mossack Fonseca no panfleto de apresentação do fundo.

No caso Fidentia, os registos da Mossack Fonseca mostram que um dos homens presos mais tarde na África do Sul pelo seu papel na fraude, Graham Maddock, pagou à Mossack Fonseca 59 mil dólares em 2005 e 2006 pela criação de duas empresas offshore, incluindo uma chamada Fidentia North America. A firma de advogados diz nos seus registos que lhe deu “o serviço VIP”.

A Mossack Fonseca também criou estruturas offshore para Steven Goodwin, um homem que os procuradores, mais tarde, alegaram que desempenhou um “papel instrumental” no caso Fidentia. Quando o escândalo rebentou em 2007, Goodwin voou para a Austrália, depois para os Estados Unidos, onde um advogado da Mossack Fonseca se encontrou com ele num hotel de luxo de Manhattan, para discutir as suas holdings offshore, revelam os documentos internos da empresa.

O advogado da Mossack escreveu mais tarde que ele e Goodwin “falaram profundamente” sobre o escândalo da Fidentia e que ele “convenceu Goodwin a proteger melhor” as ações da sua companhia offshore, transferindo-as para terceiros. No seu memorando, o quadro da sociedade de advocacia dizia aos colegas que Goodwin não estava envolvido no escândalo “de maneira nenhuma” — era uma mera “vítima das circunstâncias”.

Em abril de 2008, o FBI prendeu Goodwin em Los Angeles e recambiou-o para a África do Sul, onde se deu como culpado de fraude e lavagem de dinheiro. Foi condenado a dez anos de prisão.

Um mês depois da prisão de Goodwin, um funcionário da Mossack Fonseca sugeria um plano para frustrar os investigadores sul-africanos que iriam começar a escavar nos activos que ligavam a empresa offshore de Goodwin à Hamlyn Property LLP, que tinha sido criada para comprar propriedades na África do Sul. O funcionário propunha que um contabilista “preparasse” auditorias para 2006 e 2007, “para tentar evitar que o procurador agisse contra entidades para além da Hamlyn”. No seu e-mail, a palavra “preparar” vinha entre aspas. Não é claro se a proposta foi adotada.

A Mossack Fonseca não respondeu às perguntas do ICIJ sobre a sua relação com Goodwin. Um representante disse ao ICIJ que ele “não tinha nada a ver” com o colapso da Fidentia “ou com os 46 mil órfãos e viúvas, direta ou indiretamente”.

Politicamente expostos

A 10 de fevereiro de 2011, uma empresa anónima nas Ilhas Virgens Britânicas chamada Sandalwood Continental Ltd. emprestou 200 milhões de dólares a uma igualmente obscura firma sediada em Chipre, chamada Horwich Trading Ltd.

No dia seguinte, a Sandalwood atribuiu o direito de recolher pagamentos do empréstimo — incluindo juros — à Ove Financial Corp., uma empresa misteriosa nas Ilhas Virgens Britânicas. Por esses direitos, a Ove pagou um dólar. Mas o rasto do dinheiro não termina aqui.

No mesmo dia, a Ove reatribuiu os seus direitos de cobrar o empréstimo a uma empresa panamiana chamada International Media Overseas. Esta também pagou um dólar.

No espaço de 24 horas, o empréstimo tinha, no papel, atravessado três países, dois bancos e quatro empresas, queimando no processo todo o rasto do dinheiro.

Havia muitas razões pelas quais os homens por detrás da transação podiam querê-la disfarçada, a menor das quais não seria porque o rasto passava desconfortavelmente perto do líder russo Vladimir Putin.

O Banco Rossiya, sediado em São Petersburgo, uma instituição cujo principal acionista e presidente tem sido identificado como um dos tesoureiros de Putin, criou a Sandalwood Continental e geriu o fluxo de dinheiro.

A International Media Overseas, onde os direitos ao pagamento de juros dos 200 milhões parecem ter aterrado, era controlada no papel por um dos mais velhos amigos de Putin, Sergey Roldugin, um violoncelista clássico que é padrinho da filha mais velha do presidente russo.

O empréstimo de 200 milhões foi uma das dezenas de transações, totalizando dois mil milhões de dólares, encontradas nos ficheiros da Mossack Fonseca, envolvendo pessoas ou empresas ligadas a Putin. Fazem parte de uma empresa do Banco Rossiya que ganhou influência indireta sobre um dos principais acionistas no maior fabricante russo de camiões, e acumulou participações secretas no capital social de um grupo de média russo.

Pagamentos suspeitos feitos por amigos de Putin podem ter em certos casos sido designados como luvas, possivelmente em troca de apoios do Governo russo ou de contratos públicos. Os documentos secretos sugerem que grande parte do dinheiro do empréstimo vinha originalmente de um banco do Chipre, que nessa época era maioritariamente detido pelo Banco VTB, controlado pelo estado russo.

Numa conferência de imprensa convocada na semana passada, o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, dizia que o Governo não respondia às perguntas “orquestradas” do ICIJ ou dos seus parceiros, porque continham questões que “já foram feitas centenas de vezes e respondidas centenas de vezes”.

Peskov acrescentava que a Rússia tinha “disponível um arsenal completo de meios legais na arena nacional e internacional para proteger a honra e a dignidade do nosso presidente”.

Ao abrigo das leis nacionais e dos acordos internacionais, sociedades como a Mossack Fonseca, que ajudam a criar empresas e contas bancárias, devem estar vigilantes em relação a clientes que possam estar envolvidos em lavagem de dinheiro, evasão fiscal e outros crimes. Devem prestar atenção especial a “pessoas politicamente expostas” (PEP) — membros de governos ou seus familiares e sócios. Se alguém é um PEP, os intermediários que criam as suas empresas devem rever as atividades dessa pessoa cuidadosamente para se certificarem de que não está envolvida em corrupção.

A Mossack Fonseca disse ao ICIJ que “estabeleceu devidamente políticas e processos para identificar e lidar com os casos de indivíduos qualificados como PEPs ou relacionados com PEPs”.

A Mossack parece muitas vezes não perceber quem eram os seus clientes. Uma auditoria interna de 2015 descobriu que a firma conhecia a identidade dos verdadeiros donos de apenas 204 das 14.086 companhias que tinha criado nas Seychelles, um paraíso fiscal no Oceano Índico.

As autoridades das Ilhas Virgens Britânicas multaram a Mossack Fonseca em 37 mil dólares por violar regras anti-lavagem de dinheiro, porque a empresa constituiu uma companhia para o filho do antigo presidente egípcio Hosni Mubarak, mas não conseguiu identificar a relação, mesmo depois de pai e filho terem sido acusados de corrupção no Egito. Uma revisão interna da sociedade de advogados concluiu: “A nossa fórmula de análise de risco é seriamente fraca”.

Ao todo, uma análise do ICIJ aos ficheiros da Mossack Fonseca identificou 58 membros de famílias e pessoas relacionadas com primeiros-ministros, presidentes e reis.

Os registos mostram, por exemplo, que a família do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, usou fundações e empresas no Panamá para deter ações secretas em minas de ouro e imóveis em Londres. Os filhos do primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif também tinham terrenos no Reino Unido, através de companhias criadas pela Mossack Fonseca.

Familiares de pelo menos oito atuais ou antigos membros do Comité Permanente do Politburo da China, o principal corpo dirigente do país, têm empresas offshore arranjadas através da Mossack Fonseca. Entre eles, está o cunhado do Presidente Xi, que criou duas empresas nas Ilhas Virgens Britânicas em 2009.

Representantes dos líderes azeri, paquistanês e chinês não responderam a pedidos para comentarem estas revelações.

A lista de líderes mundiais que usaram a Mossack Fonseca para criar entidades offshore inclui o atual presidente da Argentina, Mauricio Macri, que foi diretor e vice-presidente de uma empresa das Bahamas gerida pela Mossack Fonseca, quando era um homem de negócios e presidente da Câmara de Buenos Aires. Um porta-voz de Macri disse que o presidente nunca deteve pessoalmente ações na firma, que era parte do negócio de família.

Durante os dias mais sangrentos da invasão pelos russos da região ucraniana de Donbas, em 2014, os documentos mostram que representantes do líder ucraniano Petro Poroshenko andaram à procura de uma fatura para completar a papelada exigível para criar uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas.

Um porta-voz de Poroshenko disse que a criação da firma não tinha nada a ver com “quaisquer acontecimentos políticos ou militares na Ucrânia”. Os conselheiros financeiros de Poroshenko dizem que o presidente não incluiu a firma das Ilhas Virgens Britânicas nas suas declarações fiscais de 2014, porque nem a holding nem as duas empresas associadas em Chipre e na Holanda têm qualquer património. Dizem que as empresas faziam parte de uma reestruturação empresarial para ajudar a vender o negócio de confecções de Poroshenko.

Quando Sigmundur David Gunnlaugsson se tornou primeiro-ministro da Islândia, em 2013, guardou um segredo que poderia ter prejudicado a sua carreira política. Quando entrou para o parlamento em 2009, ele e a mulher partilhavam a propriedade de uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Vendeu as ações da empresa meses mais tarde, por um dólar.

A empresa detém títulos que chegaram a valer milhões de euros em três grandes bancos da Islândia, que faliram durante a crise financeira global de 2008, tornando-o credor nas suas falências. O governo de Gunnlaugsson negociou um acordo com os credores no ano passado sem revelar o efeito que esse acordo teve nas finanças da sua família.

Gunnlaugsson negou nos últimos dias que os interesses financeiros da sua família influenciaram as suas posições. Os registos revelados não esclarecem se as posições políticas de Gunnlaugsson beneficiaram ou prejudicaram o valor dos títulos detidos através da empresa offshore.

Numa entrevista com um parceiro de media do ICIJ, “Reykjavik Media”, Gunnlaugsson negou ter património escondido. Quando foi confrontado com o nome da empresa offshore ligada a ele, a Wintris Inc., o primeiro-ministro disse: “Começo a sentir-me um pouco estranho com essas perguntas, porque é como se estivessem a acusar-me de algo.” Pouco depois, pôs fim à entrevista.

Quatro dias mais tarde, a sua mulher tornou a questão pública, publicando uma nota no Facebook em que garantia que a empresa era dela, não do marido, e que tinha pago todos os impostos devidos.

Desde então, membros do Parlamento da Islândia têm perguntado por que razão Gunnlaugsson nunca revelou a existência da empresa offshore, com um deputado a pedir a demissão do primeiro-ministro e do seu governo.

O primeiro-ministro ripostou com uma declaração de oito páginas em que argumenta não ser obrigado a dar conta pública da sua relação com a Wintris, porque a companhia é propriedade, de facto, da sua mulher, e porque é “simplesmente uma holding e não uma empresa envolvida em atividades comerciais”.

Debaixo de um manto offshore

Em 2005, um barco de recreio chamado Ethan Allen afundou-se no Lake George, em Nova Iorque, num acidente que resultou na morte de 20 turistas idosos. Quando os sobreviventes e as famílias dos mortos processaram a empresa de turismo, souberam que esta não tinha seguro, porque tinha havido uns burlões que lhe tinham vendido uma apólice falsa.

Malchus Irvin Boncamper, um contabilista da ilha de St. Kitts, nas Caraíbas, deu-se como culpado num tribunal americano em 2011, por ter ajudado os vigaristas a lavar as receitas das suas fraudes. Isto criou um problema para a Mossack Fonseca, porque Boncamper tinha servido de testa de ferro — um diretor “nominal” — para 30 empresas criadas pela sociedade de advogados.

Mal soube da condenação de Boncamper em tribunal, a Mossack Fonseca tomou rapidamente medidas. Disse aos seus escritórios para substituir Boncamper como diretor das empresas — e para antecipar as datas dos registos de forma a parecer que as mudanças tinham ocorrido, em certos casos, uma década antes.

O caso Boncamper é um dos exemplos nos ficheiros que mostram que a sociedade de advogados usa táticas questionáveis para esconder das autoridades locais os seus próprios métodos ou as atividades dos seus clientes.

Na Operação Lava jato, no Brasil, os procuradores alegam que funcionários da Mossack Fonseca destruíram e ocultaram documentos para camuflar a participação da sociedade de advogados na lavagem de dinheiro. Um documento da polícia afirma que, num caso, um funcionário do ramo brasileiro da empresa enviou um e-mail dando instruções aos colegas para ocultarem os registos de cliente que podia ter sido alvo de uma investigação policial: “Não deixem nada. Eu guardo-os no carro ou em minha casa”.

No Nevada, de acordo com os registos, funcionários da Mossack Fonseca trabalharam em finais de 2014 para ocultar os laços entre a filial de Las Vegas e o seu quartel-general no Panamá, antecipando-se a uma ordem de um tribunal dos Estados Unidos para a filial de Las Vegas dar informações sobre 123 empresas criadas pela firma jurídica. A acusação argentina tinha ligado essas empresas com sede no Nevada a um escândalo de corrupção, envolvendo os antigos presidentes Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner.

Num esforço para se livrar da jurisdição dos tribunais americanos, a Mossack Fonseca alegou que o seu escritório de Las Vegas — a MF Nevada — não era, de facto, uma filial. Disse que não controlava o escritório.

Os registos internos da firma mostram o contrário. Indicam que a sociedade de advogados no Panamá controlava a conta bancária da MF Nevada e que os seus co-fundadores e outro quadro da Mossack Fonseca possuíam 100 por cento da MF Nevada.

Para apagar as provas dessa relação, a firma conseguiu retirar da filial uma série de documentos em papel e apagou registos informáticos da ligação que existia entre as operações do Nevada e do Panamá, como mostram e-mails internos. Uma grande preocupação, como diz um e-mail interno, era que a gerente da filial pudesse ser demasiado “nervosa” para levar a cabo essa missão, facilitando aos investigadores a descoberta de que “estamos a esconder alguma coisa”.

A Mossack Fonseca recusou-se a responder a perguntas sobre os casos do Brasil e do Nevada, mas negou de forma geral que tenha obstruído investigações ou encoberto atividades ilícitas. “Não faz parte da nossa política esconder ou destruir documentação que pode ser útil em qualquer investigação ou processo em curso”, afirma a empresa.

Reformar o mundo secreto

Em 2013, o líder britânico David Cameron exortava os territórios ultramarinos do seu país — incluindo as Ilhas Virgens Britânicas — a trabalhar com ele para “pormos as nossas próprias casas em ordem” e se unirem à luta contra a evasão fiscal e o segredo das jurisdições offshore.

Não precisava de olhar para mais longe do que o seu falecido pai para ver como isso ia ser difícil. Ian Cameron, um corrector de bolsa multimilionário, era cliente da Mossack Fonseca, usando a sociedade de advogados para proteger o seu fundo de investimento, a Blairmore Holdings, Inc., dos impostos britânicos.

O nome do fundo provém da Blairmore House, a propriedade ancestral da família. A Mossack Fonseca registou o fundo de investimento no Panamá, apesar de muitos dos seus investidores-chave serem britânicos. Ian Cameron controlou o fundo desde a sua criação, em 1982, até à morte, em 2010.

Um prospeto para investidores dizia que o fundo "deve ser gerido e conduzido de forma a que não se torne residente no Reino Unido para efeitos de taxação do Reino Unido”. O fundo conseguia isso utilizando certificados de propriedade conhecidos como "ações ao portador", e empregando quadros "nomeados" da empresa baseada nas Bahamas, como se vê nos registos da firma agora divulgados.

A história do paraíso fiscal de Ian Cameron é um exemplo de como o segredo das offshores se entrelaça com as vidas das elites políticas e financeiras de todo o mundo. É também um importante motor económico para muitos países. O peso desse interesse tem tornado difícil a reforma do sistema.

Nos Estados Unidos, por exemplo, estados como Delaware e Nevada, que permitem o anonimato aos proprietários das empresas, continuam a lutar contra os esforços para exigir maior transparência às empresas.

O país-sede da Mossack Fonseca, o Panamá, recusou-se a abraçar um plano para troca de informações sobre contas bancárias a nível mundial — com medo de que a sua indústria de offshores pudesse ficar com uma desvantagem competitiva. Dirigentes panamianos dizem que vão trocar informações, mas numa escala bem mais modesta.

O desafio que os reformadores e agentes da lei enfrentam é como descobrir e travar comportamentos criminosos quando estão enterrados sob camadas de secretismo. A ferramenta mais efetiva para contornar o segredo tem sido as fugas de documentos offshore que trazem a público acordos escondidos.

As fugas de documentos divulgadas pelo ICIJ e pelos seus parceiros de media levaram à aprovação de legislação e a investigações judiciais em dezenas de países — e espalharam o medo entre os clientes dos offshores que temem que os seus segredos sejam revelados.

Em Abril de 2013, depois de o ICIJ publicar as histórias dos "Offshore Leaks”, baseadas em documentos confidenciais das Ilhas Virgens Britânicas e de Singapura, alguns clientes da Mossack Fonseca trocaram e-mails com a empresa procurando assegurar-se de que os seus bens em offshores estavam a salvo do escrutínio.

A Mossack Fonseca disse aos clientes para não se preocuparem. Afirmou que o compromisso com a "privacidade" dos seus clientes "foi sempre central e, neste sentido, a sua informação confidencial está armazenada no nosso centro de dados de última geração. Quaisquer comunicações dentro da nossa rede global são tratadas através de um algoritmo encriptado que cumpre com os mais altos padrões de classe mundial”.

* Este artigo foi escrito por Bastian Obermayer, Gerard Ryle, Marina Walker Guevara, Michael Hudson, Jake Bernstein, Will Fitzgibbon, Mar Cabra, Martha M. Hamilton, Frederik Obermaier, Ryan Chittum, Emilia Díaz-Struck, Rigoberto Carvajal, Cécile Schilis-Gallego, Marcos García Rey, Delphine Reuter, Matthew Caruana-Galizia, Hamish Boland-Rudder, Miguel Fiandor e Mago Torres.»

Expresso, 03.04.2016

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:43
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Patilhar
Domingo, 20 de Março de 2016

Retrospectivas

Janela de vidro fosco:

«De janeiro de 2015 a janeiro de 2016, o lobo matou quase 2000 cabeças de gado no Minho.O Instituto de Conservação da Natureza vistoriou nesse período 1272 ataques reportados por criadores nos Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Paredes de Coura, Cerveira, Caminha, Viana, Melgaço, Monção, Valença, Ponte de Lima, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Cabeceiras e Vila Verde, e confirmou, para efeitos de indemnização, prejuízos em 1831 animais (ovinos, caprinos, bovinos, equinos e caninos).(...)»

- Jornal de Notícias

Janela de cortinas sujas:

«A Caixa Económica Montepio Geral obteve prejuízos de 243,4 milhões de euros em 2015, acima dos cerca de 187 milhões de euros de perdas em 2014, divulgou hoje a instituição liderada por José Félix Morgado. O banco justifica, em comunicado, este agravamento dos prejuízos, face a 2014, por ter feito menos resultados com as operações financeiras (138,7 milhões de 2015, abaixo dos 352,2 milhões de 2014 com), sobretudo devido às menores mais-valias com a dívida pública, depois de em 2014 terem sido vendidos muitos desses títulos.(...)»

- Expresso.

Janela de vidros partidos:

«Mais de 100 municípios portugueses apagam as luzes durante a Hora do Planeta. A iniciativa mundial que pede para se apagarem as luzes em nome da sustentabilidade, espera chegar a mais de 100 localidades portuguesas e a alguns monumentos nacionais.(...)»

- TSF.

Janela para as traseiras:

«António Duarte, português, ficou ferido este sábado no atentado suicida em Istambul. Foi atingido por estilhaços depois da explosão. Trabalha numa empresa de telecomunicações e passeava no local no momento da explosão. Ficou ferido no rosto e sangrava de um ouvido. Está a receber tratamento hospitalar mas não perigo de vida. (...)»

Correio da Manhã.

Janela indiscreta:

«Segundo uma nota divulgada no 'site' da Presidência da República, a apresentação do retrato oficial do chefe de Estado decorreu esta tarde no Palácio de Belém.Na cerimónia privada, Cavaco Silva entregou, na presença do autor, o retrato oficial ao diretor do Museu da Presidência. Antes, Cavaco Silva explicou que recebeu várias propostas de retratos oficiais, tendo a escolha final recaído entre dois retratos, de dois pintores portugueses. A seleção entre estes dois retratos foi depois feita através de uma votação realizada entre 40 pessoas, familiares e amigos, por voto secreto em urna. Os participantes na votação não conheciam o nome do autor de cada quadro. O retrato escolhido foi, assim, o mais votado. Carlos Barahona Possollo nasceu em Lisboa em 1967 e é licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. O pintor tem trabalhos expostos em várias instituições de Portugal e, também, no estrangeiro. (...)»

- Sapo 24.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 02:09
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Patilhar
Quarta-feira, 16 de Março de 2016

Avec les temps...

«Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur quand ça bat plus s'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin faut laisser faire et c'est très bien»

 

Há mais de 30 anos (em 1982??, no Coliseu!...).

Lembro-me de alguém de cabelo branco em cima do palco, com um enorme vozeirão a protestar cantando... Aqui fica o vídeo Avec les temps, do album Amour Anarchie e a quase certeza de que "conheci" alguns poetas franceses (Rimbaud, Aragon,...) a partir das canções de Léo Ferré.

 A letra da canção, em português, é mais ou menos assim:

«Com o tempo
Com o tempo tudo parte
Esquecemos a cara e esquecemos a voz
Quando o coração já não bate já não vale a pena ir
Procurar mais longe é preciso deixar e é muito bom

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
O outro que adorávamos que procurávamos à chuva
O outro que adivinhávamos na sombra de um olhar
Entre as palavras entre as linhas e no cansaço
De um sermão maquilhado que vai fazer a sua noite
Com o tempo tudo desvanece

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
Mesmo as melhores recordações tens uma destas caras
No centro comercial confusão no limiar da morte
Sábado à noite quando a ternura se vai embora sozinha

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
O outro em que acreditávamos por uma constipação por um nada
O outro a quem dávamos o vento e jóias
Por quem teríamos vendido a alma para alguns tostões
À frente de quem rastejávamos como rastejam os cães
Com o tempo tudo se resolve

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
Esquecemos as paixões e esquecemos as vozes
Que nos diziam muito baixo as palavras das pobres pessoas
Não voltes muito tarde sobretudo não apanhes frio

Com o tempo
Com o tempo tudo parte
E sentimo-nos brancos com um cavalo cansado
E sentimo-nos gelados numa cama de ocasião
E sentimo-nos sós talvez mas tranquilos
E sentimo-nos roubados dos anos perdidos

Então verdadeiramente
Com o tempo já não amamos»

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:54
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Patilhar
Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

Escravatura...

Muitas vezes fico com a sensação de que se aproxima o fim de um ciclo. Os sinais acumulam-se:

(i) 3 ou 4 empresas de rating, empresas privadas não se sabe bem de quem, nem com que legitimidade, determinam se um país vale muito, pouco ou rigorosamente nada. Tem consequências? Tem!, mas os procedimentos são claros: existem sempre cidadãos, contribuintes na linguagem cadavérica destes príncipes de Maquiavel, dispostos a pagar. Em nome de quê, com que objectivo?;

(ii) o fluxo de dinheiro, muito dinheiro, é um bem universal, mas o fluxo de pessoas é um crime. Os migrantes, os desgraçados da globalização que fiquem onde estão. Morrem de fome, afogam-se no mar Egeu, ou matam-se uns aos outros em qualquer inferno terreno? - que importa isso, nós só queremos as matérias-primas ao preço mais baixo possível e viver no nosso cantinho olhando pesarosos as imagens de uma irracionalidade colectiva;

(iii) a globalização é imaterial, especulativa e apenas traduz na prática aquilo que todos já sabemos há muito tempo: "a minha pátria é o número de uma conta bancária", seja em que lugar for, ou mesmo em lugar nenhum, que é a forma perfeita de irresponsabilidade;

É uma questão de tempo - uma geração, menos que isso? Não faço ideia. Os sinais, como outros sinais da história, parecem-me claros. No final alguma coisa se seguirá ao capitalismo idiota em que vivemos ...

E é sempre tempo de por as leituras em dia...

 

«A história conheceu e conhece muitas circunstâncias em que, por não pagamento de uma dívida, uma pessoa perdia a sua liberdade e ia preso ou, pior ainda, era reduzido a um estatuto de escravatura, temporária ou definitiva. Estas práticas existiam na Grécia antiga, com a sempre especial excepção de Atenas, onde Sólon as proibiu. E mais ou menos espalhadas continuaram na Índia praticamente até aos nossos dias, tendo conhecido formas variadas de trabalho forçado durante a expansão colonial europeia. Hoje, uma das formas modernas de escravatura por dívida é praticada pelos grupos mafiosos que exportam mão-de-obra e emigrantes para a Europa e América e mulheres para redes de prostituição, retirando-lhes os documentos, em nome da dívida que contraíram ou as suas famílias para "pagar" a viagem e a entrada ilegal nos países mais ricos. Estamos a falar, como é óbvio, de actividades criminosas, visto que a escravatura é um crime.

Ah!, afinal não é bem assim. Se se tratar de um Estado soberano que tenha uma grande dívida, por exemplo, Portugal, este pode ser obrigado, sob pena de morrer à fome ou de uma qualquer forma de intervenção estrangeira mais ou menos agressiva que o transforme num pária, como aconteceu na Grécia, a aceitar uma qualquer forma de escravatura por dívida. Escravatura significa aqui deixar de ser um país democrático, porque os seus habitantes deixam de poder votar como entenderem, ou então votam sem consequência, porque as políticas que lhe são exigidas são sempre as mesmas — trabalhar para pagar aos credores, sob a forma que os credores consideram ser mais eficaz em função dos seus interesses. Escravatura significa aqui que um país, Portugal, por exemplo, deixa de ser propriedade dos portugueses para o ser dos credores, que definem os orçamentos, as políticas, até ao mais pequeno pormenor, deixando apenas a intendência muito menor aos responsáveis locais. Escravatura significa que esses países e povos que assinaram em desespero de causa um contrato, seja um memorando, seja um tratado orçamental, um contrato por dívida, ou outro, um contrato que obriga todas as políticas a servir a dívida e o seu pagamento, não podem sequer escolher qualquer outro caminho para pagar a dívida que não seja o de aceitarem a escravatura, senão partem-lhes as pernas. Os credores controlam a "reputação" e a "confiança" de um país, conforme ele cumpre os preceitos do bom escravo, e, caso haja dúvidas sobre a sua obediência, tiram-lhe de imediato o ar.

Lembro-me disto quando ouço justificar tudo o que acontece com a "bancarrota Sócrates". E tudo o que nos acontece não é coisa de somenos, é aquilo que define a liberdade de um país e de um povo, é a perda de democracia, a perda de autonomia dos portugueses para se governarem, a redução das suas instituições como o Parlamento à impotência, é o taxation without representation, é a humilhação pública de governos através de fugas de informações de funcionários de Bruxelas, é o desprezo e o deitar gasolina para a fogueira de pessoas como Schäuble e, pior que tudo, é ver portugueses muito contentes com a submissão do seu país. Percebe-se porquê: as políticas que nos são impostas são as deles, identificam-se com elas e os interesses que representam (e representam muitos interesses) sentem-se confortáveis com a escravatura que nos é imposta. Podem não governar já hoje Portugal, mas governam-no a partir de Bruxelas, das agências de rating e do senhor Schäuble.

A "bancarrota Sócrates" foi um desastre para o interesse nacional, Sócrates tem uma imensa responsabilidade, mas não está solitário nessa responsabilidade. Embora ainda haja muitas obscuridades no que aconteceu, a responsabilidade deve ser partilhada com o PSD e o CDS, e em menor grau como BE e o PCP. Parte dessa responsabilidade é também da crise financeira internacional, da maneira como a Alemanha suscitou, com o caso grego, a crise artificial das dívidas soberanas, e do comportamento errático da Comissão sob tutela alemã, que primeiro quis combater a crise deitando dinheiro em cima da economia e depois travou, virando 180º a política económica. Bem vistas as coisas, sem que isso signifique uma caução às políticas despesistas de Sócrates, podia não ter havido a "bancarrota Sócrates".»

José Pacheco Pereira. Escravatura por dívida.Público.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:04
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Patilhar
Domingo, 21 de Fevereiro de 2016

Umberto Eco

A adaptação de livros ao cinema tem uma longa história, mas lembro-me de poucos exemplos em que esta ligação tenha resultado num final feliz. O Nome da Rosa é provavelmente um destes raros exemplos.

Entre o livro, o filme (de Jean-Jacques Annaud), e uma representação teatral, que há uns anos vi no Convento de Cristo em Tomar, ainda é este último que mais retenho na memória.

(Umberto Eco morreu. Não gosto de obituários, mas há personalidades que são incontornáveis e por isso aqui fica esta nota..., como complemento de outras: ver aquiaqui e aqui.)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:05
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Patilhar
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016

As ondas do Albert

Einstein.jpg

Admito que o meu espanto seja proporcional à ignorância que tenho nestas matérias, mas impressiona-me o facto de uns gatafunhos rabiscados numa sebenta se irem tornando a pouco e pouco (e já lá vão 100 anos...) na explicação de uma realidade que ninguém vê (ou via). Afinal a melhor prática ainda é uma boa teoria!...

Ó Albert, esse cabelo desgrenhado é devido à ondas gravitacionais, seja lá isso o que for?

 

« [...]

A descoberta das ondas gravitacionais não é nada inesperado para os físicos. Todos eles esperavam, mais tarde ou mais cedo, que mais esta previsão de Einstein se viesse a confirmar. Mas é uma ironia da história que ela tenha sido feita escassos dois meses após o centenário da teoria da relatividade geral de Einstein, que tão bem descreve os fenómenos gravíticos através de uma deformação do espaço-tempo em volta de corpos com massa.  Até agora todas as previsões da relatividade geral de Einstein bateram certo. É uma teoria não só bela - uma das mais belas teorias científicas - mas também verdadeira, muito verdadeira.

[...]»

Ler texto integral em De Rerum Natura

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:16
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Patilhar
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016

Volta-de-lua

- Filho, hoje é dia de volta-de-lua, não devias podar as videiras...

- Hum?

- No meu tempo, os homens levavam uma pequena bacia com água e cinza que punham ao pé das videiras enquando andavam a podar. Quando acontece a volta-de-lua a cinza revolve-se e a água fica turva - não se pode podar mais! As videiras não dão cachos e o vinho estraga-se...

 (Entretanto Marcelo foi eleito presidente da república)

 Sem bacia com água e cinza, espero que as videiras dêem uvas e o vinho seja bom... 

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:42
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Patilhar
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