Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
...ainda as hortas urbanas

Afinal ando um pouco distraído e desactualizado… Há várias iniciativas pelo país, incluindo encontros, cursos e até uma tese de mestrado. Ainda um dia, com tempo, vou tentar perceber os pormenores deste fenómeno. Fica uma lista de notícias, um pouco ao acaso:

 
«Lisboa vai ter mais e melhores hortas urbanas até 2001», Público de 25.05.2009»
«Hortas urbanas em Coimbra são cultivadas por mais de 20 agricultores», Público de 25.01.2009.
«Câmara Municipal do Funchal suspende inscrições para hortas urbanas. Lista de espera extensa (305 candidaturas) está na base desta decisão». NetMadeira, 05.11.2009.
«Hortas urbanas.
As hortas urbanas tornaram-se numa moda. Como todas as modas, também esta não se justifica em pleno pelo conservadorismo de hábitos. Mas, se todas as modas fossem como esta, seríamos certamente cidadãos mais felizes. (…)» Diário Região Sul, 12.05.2009.
«Projecto Rede de Hortas Urbanas.
As hortas urbanas que persistem no Seixal constituem uma parte importante do património ambiental e histórico do Concelho. Atenta a esse facto e ao papel desempenhado pelas hortas na reconversão de espaços desocupados ou degradados, a Câmara Municipal está a trabalhar na criação de uma Rede de Hortas Urbanas e na requalificação das hortas já existentes, integrando-as na Estrutura Ecológica Municipal.» Folheto da Câmara Municipal do Seixal.
«Hortas urbanas do Grande Porto têm mais de 700 pessoas em lista de espera», no Público de 04.10.2009.
«Encontro da Horta Urbana no Palácio de Cristal. 17 de Maio de 2008.»
«Curso teórico-prático sobre HORTAS URBANAS». Formadora: Paula Tavares (Bióloga). Local: Almada (Portugal). Data: 9 de Fevereiro a 1 de Março de 2008»
«Hortas urbanas: espaços para o desenvolvimento sustentável de Braga». Pinto, Rute Sofia Borlido Fiúza Fernandes. Dissertação de Mestrado Em Engenharia Municipal - Área de Especialização em Planeamento Urbanístico. Universidade do Minho.

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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
O Muro

 

        (imagens retiradas da internet)

 

    

 

Dizem que este tipo de acontecimentos precisa de um certo tempo (tempo histórico) para se poder dar uma depuração da(s) realidade(s), uma espécie de separação das diferentes mentiras e das diferentes verdades...

Devo confessar que pouco me importa esta exigência de distanciamento que, pelos vistos, a história necessita para efectuar a sua leitura imparcial... Sempre achei os impulsos e as emoções, a indignação e a revolta, o sim e o não, assim como os respectivos actos, símbolos da genuinidade humana e, como tal, improváveis objectos de uma leitura e de uma análise distanciadas. Pouco me importa que a futura leitura histórica, a leitura objectiva, tenha uma imensidão de factos bem arrumadinhos em milhões de palavras... Para mim, tudo se resumiu, desde sempre, a uma única palavra: liberdade! De resto, os muros, quaisquer que eles sejam, sempre se deram mal com a liberdade…



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Sábado, 7 de Novembro de 2009
Hortas urbanas

(É também nestas pequenas coisas, quase simbólicas, que o poder autárquico pode começar a garantir o salto qualitativo que lhes permita sair do betão e do asfalto e olhar um pouco à sua volta … Faço figas para que esta notícia interessante se torne numa realidade boa! Quando for a Ponte de Lima vou querer ver estas hortas…)

 
«Câmara de Ponte de Lima dá lotes de terreno para criação de hortas urbanas
A Câmara de Ponte de Lima criou o projecto “Hortas Urbanas”, distribuindo, pelos munícipes interessados, lotes de terreno para cultivo agrícola, informou hoje fonte autárquica. “As pessoas que têm o gosto pela terra mas que não dispõem de um terreno para cultivar passam, a partir de agora, a dispor de um espaço para a sua própria horta”, conta Gonçalo Rodrigues, responsável pelo projecto.
Na Veiga do Crasto, mesmo às portas da sede do concelho, foi vedada uma área expressamente para a implantação das “Hortas Urbanas”, que, nesta primeira fase, disponibiliza 36 lotes, cada qual com uma área entre 40 a 45 metros quadrados.
O projecto já recebeu oito candidaturas, a quem vão ser atribuídos os respectivos lotes, no próximo sábado. Entre os primeiros candidatos, “há de tudo”, desde um arquitecto a uma mulher que vivia no campo e que entretanto se transferiu para o núcleo urbano, sendo também muitos variáveis as idades, com gente jovem e outra já a entrar na terceira idade. “O denominador comum a todos é o gosto pela terra”, frisou Gonçalo Rodrigues.
Naquelas hortas poderá cultivar-se todo o género de produtos hortícolas, bem como flores. Além do lote de terreno, o Município disponibiliza também um ponto de água destinada à rega das culturas, um abrigo comum para armazenamento dos utensílios agrícolas e um espaço comum para compostagem ou colocação de estrumes. Fornece ainda informação sobre os modos de produção e práticas culturais ambientalmente correctas e um livro que permitirá a comunicação entre os participantes e o Município de Ponte de Lima.
“A ideia é apelar às boas práticas agrícolas, no âmbito da agricultura biológica”, explicou Gonçalo Rodrigues. Proporcionar um espaço de ocupação dos tempos livres a todos os que participem no projecto e concorrer para a manutenção das actividades humanas e, consequentemente, para o uso e ocupação do solo da Veiga de Crasto são outros objectivos do projecto. No futuro, a área disponibilizada pode ser ampliada, caso a procura o justifique.»
No Público, de hoje.


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Domingo, 1 de Novembro de 2009
Pum!

Apetecia-me falar do Vara… Sim, do Armando, de todos os armandos-chico-espertos que temos que suportar, dos idiotas do desenrasca, do anafados do faz de conta, daqueles que se esforçam por parecer o que não são… Mas vou ficar por esta nota, por remoer este incómodo, irritado comigo próprio. Não porque siga aquela máxima de que toda a gente é inocente até à condenação (antes de mais nada, antes de todos os processos que nunca chegam ao fim, são os valores éticos que estão em causa…), mas simplesmente porque há coisas que me causam vómitos.

 

Um dia este país vai aparecer de ceroulas, ridiculamente nú, como aquele rei da estória da nossa infância (o nú, numa república, inclui a ceroula, como óbvia remanescência de um imaginário que a pouco e pouco se vai desvanecendo…). Ainda um dia vamos acordar e perguntar a nós próprios o que andámos a fazer, ou o que permitimos que se fizesse… Espero que não seja tarde demais!

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Sábado, 24 de Outubro de 2009
Outros olhares

Barragem Marechal Carmona. Idanha-a-Nova

Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm (1/500 s; f/14; 18 mm; ISO 400); (1/500 s; f/10; 162 mm; ISO 400)



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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
António Lobo Antunes

Já uma vez aqui tentei reproduzir parte de uma entrevista de António Lobo Antunes à SIC, e agora faço o mesmo com a entrevista desta noite a Judite de Sousa, na RTP1, pela simples razão de que elas contêm alguns dos momentos mais interessantes do que de bom se faz em televisão (por isso mesmo, por se tratar de televisão, e também porque esta transcrição livre dos primeiros 5-6 minutos, em mais de meia-hora, omite coisas importantes, incluindo os silêncios, o vídeo está disponível aqui).

 

Para mim, trata-se apenas de um exercício de auto-aprendizagem, confessando a enorme dificuldade em ler de fio a pavio alguns dos livros de Lobo Antunes. Vou tentar o último, em que até o título é, em si mesmo, um convite irresistível: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?
 
«[…]
JS – … vida é uma palavra certa para definir este percurso de 30 anos de vida dedicada à escrita?
ALA – … esse termo vida literária não foi cunhado por mim. Na realidade eu escrevo desde que me conheço (devo ter começado a escrever conscientemente por volta dos cinco, seis anos), portanto é muito mais do que isso… Eu penso que eles estão a querer dizer … com a altura da publicação do primeiro livro, que não era o primeiro livro, aliás, … eu escrevia os livros e deitava-os fora. Não tinha pensado fazer uma carreira, digamos assim, enquanto escritor…
JS – … a palavra vida é uma palavra justa para definir a sua relação com os livros e a sua relação com a escrita?
ALA – Nesse sentido posso aceitar a definição. De facto, ao longo da minha vida tenho sistematicamente cortado os pescoços que se interpõem entre mim e os livros, e às vezes tenho a sensação de ser uma galinha que protege os ovos… Os ovos neste caso são os livros, evidentemente. Os livros, o tempo para escrever e a disponibilidade que é preciso para isso…
JS – Como é que o António gere esse tempo e essa disponibilidade?
ALA – Sabe, é uma questão de método, porque quando estou com um livro…, normalmente é sempre o mesmo horário. Começo às nove e meia-dez, acabo à uma, recomeço (…). Isto, todos os dias, até o livro estar pronto (…)
JS – (…) isso não é muito esgotante?
ALA – Não! O que é mais esgotante são os intervalos entre os livros, em que a Judite não sabe se vai ser capaz de escrever outro livro, ou não…, porque os livros não são feitos por si…, pelo menos nos meus não tenho a convicção de ser o autor deles… Outro dia, por exemplo, eu estava cansado - tinha escrito muitas horas… Fui à estante e tirei um livro ao acaso, era Os Tempos Difíceis, do Dickens, (…) abri o livro, assim…, e a certa altura num diálogo espantoso de duas, três linhas, em que o filho vai visitar a mãe, já velha e doente, muito doente, e pergunta-lhe: tens dores, querida mãezinha?, e ela responde: tenho a impressão que há uma dor aí, pelo quarto, mas não sei se me pertence. Isto é espantoso… Agora, o acto de escrever é um pouco parecido com isto: tem a sensação de que há um livro por aí, mas não sabe exactamente se lhe pertence… E é quando ele está acabado, e nessa altura deixa de lhe pertencer.
JS – E é por isso, também, que o António diz que parte sempre de uma folha em branco (…)? E há uma outra coisa que o António também diz: sofre com a escrita, representa também uma certa dose de sofrimento (…)
ALA – Representa uma certa sensação de sentimentos misturados: sofrimento, alegria, júbilo, desânimo, descrença, etc. Mas é evidente que é um trabalho agradável. (…) sobre as duas primeiras versões. A primeira versão, (…) a sensação que eu tenho é como uma estátua enterrada no jardim, tem que cavar a terra, tirar a estatuetazinha, depois limpá-la, da terra, dos insectos mortos, das folhas podres, até aquilo tomar a forma de um livro. A segunda versão é um magma que tem que ser muito bem trabalhado, depois…
JS – (…) nas tais horas que dedica à escrita, há pausas, há horas que dedica à leitura…
ALA – (…) eu leio todos os dias, sim. Para aprender! Sabe, eu continuo sem saber nada do que é escrever, e tenho a sensação de quando estou a escrever, a trabalhar… pareço uma criança cega, a tropeçar às escuras num caminho que não conhece.
JS – Quando diz que não sabe nada do que é escrever, isso não é modéstia?
ALA – Eu não tenho modéstia…, acho que tenho um orgulho humilde. Acho que é uma consciência de que …, como é que eu hei-de explicar… Sabe, aqui há uns anos deram-me uma coisa que era o prémio Jerusalém, uma coisa importante…, era preciso fazer um discurso, que tinha que ficar incluído num livro, que depois era publicado, juntamente com os discursos daqueles que tinham ganho o prémio anteriormente, e o que me veio à cabeça, e como eu acabei, foi uma carta do Newton (que mudou a nossa vida e a nossa concepção do mundo: ele descobriu a identidade sobre a diversidade, descobriu que a lua que não cai e a pedra que cai são o mesmo fenómeno, … modificou por completo o nosso conceito do tempo que possibilitou toda a grande física moderna, todos os avanços a partir do séc. XIX, Einstein, Max Planck, etc, foram todos esses caminhos que foram descobertos…) E no fim da vida ele escreve a um amigo, mais ou menos assim: não sei o que o futuro pensará de mim, na minha opinião fui apenas uma criança a brincar na praia, que encontra o seixo mais bonito, a concha mais colorida, enquanto o infinito oceano da verdade continua intacto diante de mim… Ele era um homem vaidoso, no entanto tinha a perfeita consciência de que estamos apenas na idade da pedra do conhecimento… E, no fundo, porque uma pessoa escreve? Por um lado, para se conhecer melhor a si mesmo e aos outros, por outro lado, porque a arte, apesar de tudo, talvez seja a forma suprema de dignificação do homem. A nossa única possível vitória sobre a morte.
JS – E o António, também escreve para se conhecer a si próprio?
ALA – Não, porque… Tomara eu! O que se passa na realidade é que continuo a ser ignorante. Podia quase assinar como o Leonardo da Vinci, que assinava Leonardo Iletrado (…)
(…)
ALA – Nós nunca falamos de livros. Não falo de livros com os meus amigos. Tenho um grupo de amigos, com que eu me junto às quintas-feiras, e há três assuntos que são tabus: não falamos de mulheres, de política, nem de religião.
JS – Porquê esses assuntos tabus?
ALA – Porque podemos falar de assuntos muito mais importantes e muito mais interessantes…, e com menos mentira. Já reparou como os homens quando falam das mulheres mentem constantemente e tentam posar de perfil, dar a eles mesmos uma boa imagem. De política não falamos, porque há pessoas de tendências e opiniões várias e aquilo que nos une são outro tipo de coisas. (…) Eu conheço-as e é evidente que eles têm opiniões e pontos de vista diferentes sobre um certo número de coisas (…) Sabe, as pessoas são como os arco-íris, nós nunca nos entendemos nas sete cores, se nos entendemos em três ou quatro já é muito bom… O casamento no fundo é isso: são pessoas que são convocadas, um homem e uma mulher, a entender-se em quatro ou cinco cores. Isto é excepcional. E então é nessas cores que nós temos que viver, e respeitar as cores diferentes um do outro.
JS – Isso é respeitar, a diversidade, de certa forma…
ALA – Sim, o gosto… Compreender que, por exemplo, enquanto nós homens somos rotineiros, as mulheres gostam da surpresa. Os homens têm tendência a ir aos mesmos restaurantes, a levar mesmo tipo de vida, etc. As mulheres gostam de uma coisa muito curiosa, gostam da surpresa no interior do quotidiano.
JS – Conhece bem as mulheres (…)
ALA – Eu nasci duma mulher!... Isso é um milagre que eu não esqueço…
[…]»

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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Odores de Outono

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm;

(1/60 s; f/5,6; 106 mm; ISO 400) (1/250 s; f/7,1; 200 mm; ISO 400) (1/250; f/7,1; 200 mm; ISO 400)
 
Não gosto de partilhar estas pequenas coisas, mas também me parece que cada vez mais existem pequenos mundos que se não forem partilhados acabam por se tornar exóticos... E não há nada de exótico na caça! É verdade que há muito tempo deixei de correr atrás das perdizes - hoje procuro-as, mas pouco me importa que os seus inúmeros segredos acabem por me enganar e me escapem. O gozo está na descoberta de outras coisas, incluíndo a própria geada matinal do Outono que pelos vistos o Miguel* nunca se apercebeu que existia. O segredo está nos pequenos detalhes de um cão que nos guia pelo labirinto infindável de uma procura que se torna em descoberta e que o (outro) Miguel exemplarmenete decreveu**. Não, não procuro um desporto, nem sequer um almoço diferente, mesmo que o gosto a perdiz com couve-lambarda*** ainda perdure. Não, a descoberta está nos odores da manhã, no nascer do sol por entre as nuvens, no despedir das folhas de carvalho, no bater agitado das asas desse perdigão sobrevivente de mil emboscadas, no silêncio que acompanha a morte... É, de algum modo, uma descoberta do que de primitivo há em nós...

 

«Dantes, aos primeiros sinais de Outono, eu entrava em depressão. Mais do que a chegada do Outono, o que me deprimia era o fim do Verão, pois que sempre fui devoto dessa verdade enunciada por Rilke: "só o Verão vale a pena".
(…)
Mas, há uns anos, tudo mudou. Alguns amigos começaram a levar-me à caça e eu descobri que, além do mar, também havia a terra, e depois do Verão havia o Outono: foi uma descoberta tardia, mas decisiva, como se tivesse descoberto uma quinta estação do ano e, mais do que isso, um novo pretexto para a felicidade.
(…)
Muito embora o campo não me fosse propriamente estranho, eu não sabia como eram os campos de caça. Não fazia ideia do mundo novo, primordial e deslumbrante, que iria encontrar. Não imaginava as manhãs de geada ou de orvalho suspenso nos arbustos e nos ramos das árvores, as manhãs de frio polar ou as de chuva e lama, onde nos enterramos até à alma e maldizemos a decisão de ter saído da cama - que logo depois bendizemos, assim que os primeiros raios de sol rompem as nuvens e o frio ou que a primeira peça de caça tomba no chão. Não imaginava as longas caminhadas por cabeços ou planícies, por leitos secos de rios ou através da água, o cheiro a esteva e a giesta, ou as longas emboscadas, atento a todos os ruídos, ao simples agitar de uma folha, adivinhando a presença próxima dos animais antes de os ver. As esperas silenciosas à beira de um riacho, molhando a cara na água cristalina, aproveitando para colher poejos ou beldroegas tardias, aproveitando para pensar na vida, no essencial, no que verdadeiramente importa. A sós, com os três maiores luxos que um homem pode ter: espaço, tempo e silêncio. Porque aqui não há multidões nem urbanizações turísticas, não há pressa nem vozearia de conversas inúteis.
[…]»
* Miguel Sousa Tavares in Outono e Elogio da Caça. Expresso, 09-10-2009.

 

«[...] Segue-se que estavam praticamente a sair de casa, quando um cheiro a perdigão lhe entrou em faca pelo nariz. Estacou ali mesmo, no meio da estrada, voltado para a ribanceira. Ainda se lembrava perfeitamente de ter ficado com a pata direita no ar, paralisada. Depois, a tirar de ventos, foi andando cautelosamente. Até que se encontrou a dois palmos do seu velho conhecido. Era um patriarca manhoso, de esporões em rosário pelas pernas acima, que há anos lhe moía a paciência. Três vezes - em três épocas sucessivas - o pusera a tiro para o patrão, sem valer de nada. O velhaco abria as asas, deixava o chumbo passar, e, sem ninguém mais a afligi-lo, ficava à larga, a criar unto. [...]»
** Miguel Torga, in Os Bichos. Edição do Autor.
 

*** Para os aprendizes, consultar, por exemplo, O Livro de Pantagruel, pág. 539, na edição do Circulo de Leitores.



Publicado por FD às 01:37
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Sábado, 10 de Outubro de 2009
Paisagens rurais

Modulação da paisagem numa exploração agro-pecuária e florestal na Meimoa, Penamacor

 

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/500 s; f/13; 125 mm; ISO 400)

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/400 s; f/14; 72 mm; ISO 400)

 



Publicado por FD às 00:17
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Silêncios

Presidente da República marca declaração para amanhã às 20h00

Em qualquer jornal, por exemplo aqui.
 
(Sempre achei que os silêncios fazem parte daquele conjunto muito pequeno de coisas íntimas, destinadas a ser digeridas e sofridas sem nenhuma partilha. Só assim são bons, só assim fazem sentido!
É por isso que detesto o silêncio dos políticos, porque são silêncios públicos, porque não passam de tentativas de parar e aprisionar um tempo que não lhes pertence. De tão inúteis acabam por se tornar ridículos.)

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Publicado por FD às 00:22
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
O PIB e a felicidade

 

(Esta é uma notícia muito interessante. Vale a pena ler na integra este artigo, no Público. Nem que seja por uma questão de auto-estima…)
«[…]
Podemos confiar cegamente em apenas um indicador para saber qual o rumo que o país está a seguir? E devemos, seguindo a mesma lógica, concentrar todos os nossos esforços em fazer subir este indicador específico? Há quem ache que não e tenha decidido, durante a passada semana, dar um passo importante para pôr em causa a ideia de que o PIB, tal como é calculado, é o único indicador de referência possível para medir o sucesso de uma sociedade.
Em resposta a uma encomenda do Presidente francês, os prémios Nobel da Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen, com a ajuda de um conjunto vasto de outros economistas de renome internacional, apresentaram um relatório que enumera as falhas do actual PIB e que sugere modificações que permitam incluir, no seu cálculo, outros factores. A felicidade, a sustentabilidade ambiental ou uma distribuição mais equilibrada do rendimento são colocadas, nesta proposta, lado a lado com aquilo que é fisicamente produzido.
A ideia não é original. Logo quando foi criado o conceito de PIB, houve quem apontasse as insuficiências e fragilidades deste indicador. Em 1990, as Nações Unidas criaram o Índice de Desenvolvimento Humano (que junta o PIB a outros indicadores no campo da saúde e educação) e mesmo no isolado Reino do Butão as autoridades têm vindo a utilizar como medida principal do seu desenvolvimento o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB).
A diferença da iniciativa de Sarkozy é que parte de uma das potências económicas mundiais e tem, para além da credibilidade académica dos seus autores, o apoio técnico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), uma instituição que tem como membros os países mais ricos do planeta. Pela primeira vez há uma hipótese, por muito vaga que seja, das potências mundiais começarem a alterar a forma como medem o desenvolvimento dos seus países.
[…]
O PIB, tal como é calculado actualmente, limita-se a ser a soma da produção final realizada e contabilizável, durante um determinado período, no território de um país. Isto faz com que, por exemplo, a construção de uma prisão contribua para fazer subir o PIB, ao passo que os momentos de lazer de uma pessoa, se não implicarem qualquer consumo, não influenciam em nada o resultado estatístico final, constituindo, nesta matéria, apenas um desperdício de tempo. São estas características do PIB que fazem com que se coloquem interrogações sobre o estímulo que se está a dar à sociedade, quando é este indicador que é utilizado como a principal referência para o sucesso de uma economia.
A proposta da equipa liderada por Stiglitz é a de criar um indicador novo. Corrigir várias das actuais características do PIB e, principalmente, juntar-lhe uma série de novos dados. A mudança nos procedimentos estatísticos seria de tal modo radical que o novo indicador proposto não seria um "novo PIB", mas sim algo completamente diferente.
Começa-se logo por dizer que o Produto Interno tem de ser abandonado para passar a dar mais importância ao Produto Nacional, uma vez que este último leva em linha de conta os rendimentos que são transferidos de fora ou para fora do país. Depois, defende-se uma maior utilização de indicadores como os rendimentos das famílias, procurando não olhar apenas para a média, que pode esconder fortes desigualdades, dando mais atenção à forma como está distribuída a riqueza.
A noção de sustentabilidade também ganha um papel central. Não só em termos ambientais, como na avaliação da capacidade do modelo económico seguido poder assegurar um crescimento o mais prolongado possível. Esta questão ganhou mais importância com a crise e, por isso, é proposto que indicadores como o nível de endividamento sejam levados em conta.
Por fim, na tentativa de incluir a felicidade nas estatísticas oficiais, o relatório aposta no recurso a uma série de indicadores - objectivos e subjectivos. Dados quantificáveis referentes ao sistemas de saúde, ao nível educativo, aos níveis de segurança ou ao funcionamento das instituições democráticas juntam-se a avaliações qualitativas da forma como está organizada a sociedade e do nível de felicidade de cada um.
[…]
Esta é, claro, uma das tarefas mais difíceis de concretizar. Como afirma José Reis, professor da Faculdade de Economia da Universidade Católica, "a medição da felicidade é uma das derivas economicistas de uma teoria económica que admite que tudo é monetarizável e quantificável".
O problema é que, na tentativa de quantificar a felicidade, os estudos realizados ao longo das últimas décadas apresentam conclusões que estão muito longe de serem consensuais. Feitas com base nesses estudos, há tabelas mundiais de felicidade com resultados para todos os gostos. Tanto ficam os países pobres das Caraíbas, com o seu clima sempre quente e praias paradísiacas, na liderança como se obtêm resultados que apontam para uma correlação quase perfeita entre dinheiro e felicidade.
[…]»
"Afinal sempre há vida para além do PIB", no Público, de 20.09.2009

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Publicado por FD às 02:40
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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009
Outros olhares

... depois das chamas, ficaram pequenas ilhas, como esta... (Sortelha/Sabugal)



Publicado por FD às 22:48
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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
"... um banco do jardim de S. Amaro"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Da próxima vez que for a Lisboa hei-de ir ao jardim de S. Amaro visitar este banco que aparece no Abrupto de J. Pacheco Pereira centenas de vezes (só nos últimos dois meses, 22 fotografias) com a intrigante legenda: “Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro”. Ainda não percebi a importância deste banco (ou deste jardim), a não ser que o importante seja mesmo a passagem do tempo… Já há muito tempo que se sente a tendência de Pacheco Pereira para a repetição até à exaustão de slogans (dando razão ao conhecido humorista que dizia que o verdadeiro artista é aquele que repete muita vez a mesma coisa), mesmo que embrulhados numa aparente liberdade de pensamento...

O que parece novo é esta obsessão pelos bancos de jardim, pelas coisas terrenas, aparentemente banais… Resta a passagem do tempo, naturalmente irrepetível… Mas sendo assim, porquê uma fotografia, centenas de fotografias, para mostrar o invisível?

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Publicado por FD às 23:37
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Domingo, 6 de Setembro de 2009
(De)batendo

 

Nesta fase pré-eleitoral, os debates são uma espécie de sobremesa quase diária… No fundo, no fundo, gostava de conhecer alguém que formasse a sua opinião eleitoral (leia-se: voto) a partir destes debates. Não está em causa a sua importância, nem pressuponho que isto seja uma espécie de teste em que alguém vai a um Benfica-Sporting para saber se há-de ser benfiquista ou sportinguista (ou nem uma coisa nem outra). Não é isso. A minha curiosidade é sociológica: é perceber qual é efeito dos políticos e das suas propostas, num determinado debate, sobre as convicções dos eleitores. É que tenho a sensação de que é nula!
Já não tenho tanta certeza da influência de terceiros, daqueles que se seguem nos debates: os comentários nas diversas televisões sobre quem ganhou ou perdeu esses debates. Estes comentaristas parecem-me os verdadeiros fazedores de votos, só não tenho a certeza que eles tenham total consciência disso (ou têm e estou a ser ingénuo?). Esta responsabilidade, a existir, é de tal modo importante que devia ser partilhada sem a óbvia e incómoda ligeireza que na maior parte das vezes é exibida - não, não espero que os jornalistas sejam isentos, nem que os politólogos (que raio de profissão!...) sejam neutros. Espero apenas que não sejam ridículos.
A não ser que se trate do tal jogo de futebol em que já se sabe que o jogo não tem nenhuma relevância na escolha individual do adepto. O resto é uma espécie de voyerismo cómodo sobre um mar de certezas, de vez em quando encrespado com ligeiras angústias …
(Não são as certezas do Ricardo Costa que me irritam, é a maneira como ele expressa essas certezas. Não são as palavras de Joaquim Aguiar que me incomodam, é a minha incapacidade de perceber a sua convexidade - ó J'aquim, afinal o que é que tu queres dizer, porque torturas as palavras?)

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Publicado por FD às 23:27
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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
O Dedo de Galileu

Há a idéia de que os cientistas são uns tipos fechados, metidos nos seus laboratórios ou imersos nos seus pensamentos, carrancudos, sem grande disponibilidade para o mundo quotidiano. Não me parece que seja bem assim! A ciência é exigente, avessa a facilidades e a generalidades, mas os seus intérpretes perceberam há muito tempo que o mundo depende deles, muito simplesmente porque não se pode viver nesse mundo sem alguém se dar ao trabalho do compreender. Aliás, por alguma razão as universidades são hoje, em todo o mundo, os centros do poder, embora o seu exercício seja delegado, por muito que custe a alguns políticos de trazer por casa (este é um bom tema de reflexão...).

 

Por estes motivos (não encontro agora outra razão objectiva…), habituei-me a ler alguns livros de divulgação científica, não na vã esperança de perceber os complexos mecanismos dessa ciência (sejamos claros: a ciência não é matéria de consumo fácil…), mas simplesmente na tentativa de perceber o que vai na cabeça de cada um daqueles génios. E o resultado é simplesmente deslumbrante: afinal aqueles tipos são geniais, mas gostam de coisas simples e, sobretudo, conseguem consumir a vida, vivendo-a, e não apenas decifrando-a, como se poderia suspeitar. No fundo, jogam aos dados, e têm imenso gozo nisso!
Para os menos atentos, ou os mais curiosos, aqui ficam alguns dos livros que ao longo dos anos me ajudaram a viver um pouco esse espaço de deslumbramento da ciência (livros de leitura breve, alguns com reduzida exigência de conhecimento prévio):
- O Acaso e a Necessidade, de Jacques Monod e François Jacob
- Diálogos sobre Física Atómica, de W. Heisenberg
- O Relojoeiro Cego e o Gene Egoísta, de Richard Dawkins
- Cosmos, de Carl Sagan
- O Macaco Nú e A Essência da Felicidade, de Desmond Morris
- Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson
… e, já agora, transcrevo um breve trecho da última leitura (um livro mais exigente – ainda não foi desta que compreendi aquela história de Einstein de que alguém pode viver dez anos e o seu amigo em viagem viver apenas cinco ou seis anos…), relativo ao capítulo do ADN, onde se revela esta coisa enigmática do nosso código genético ser fundamentalmente lixo, assim como um bilhete de identidade onde a única coisa verdadeiramente relevante é o insignificante número que o distingue de todos os outros:
 
«[…]
Uma grande parte do nosso ADN é lixo de intrões, já que a natureza, no seu modo elegante e económico mas no fundo esquálido, não se preocupa com deitar fora o lixo que cai em desuso, arrastando-o através de gerações sucessivas. O que é estranho, porque implica que grande parte do precioso recurso que é a energia seja canalizada para a propagação da inutilidade. Talvez o lixo tenha uma função que ainda não identificámos. Talvez seja a forma perfeita de assegurar a propagação da informação através das gerações, sem esta se expor aos perigos que acompanham a actividade patente. O ADN lixo poderá ser informação pura, eterna e não expressa com nenhum outro propósito que não uma existência sem propósito. Este ADN sem propósito é altamente bem sucedido, já que cerca de 98 por cento do ADN que arrastamos é lixo. Apenas 2 por cento é útil, ou seja, codifica proteínas.
[…]»
 
Peter Atkins in O Dedo De Galileu. Gradiva.


Publicado por FD às 01:19
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
Cyril Massarotto

(Quem me manda procurar livros em férias?... Normalmente sai isto – uma literatura estranha, sem qualquer grau de exigência… Amanhã, na banca dos jornais – o melhor sítio para passar os primeiros quinze minutos do dia, após o café da manhã – todas as primeiras páginas vão desmentir este livro!…)

 
«[…]
- Nunca disse que conhecia o futuro de maneira absoluta, disse que conhecia toda a vossa vida desde que nascem, uma vez que vou de um ponto ao outro do tempo de vida dos homens. O meu conhecimento do futuro é, portanto, em tempo humano, e neste preciso segundo em que te falo, de cento e trinta e quatro anos, ou seja, até ao dia da morte do homem que já nasceu e que viverá mais tempo. Não te preocupes que vais acabar por compreender. Portanto, sei o que se vai passar daqui a centro e trinta e quatro anos, mas não depois desse tempo, até que nasça uma criança que viva mais tempo que as anteriores. Olha, acaba de nascer, chama-se Shigeru. É japonês e a sua vida vai durar cento e trinta e seis anos, portanto, conheço os próximos cento e trinta e seis anos. E isto vai evoluindo a cada nascimento.
- De acordo, o livre-arbítrio significa que tu não decides no nosso lugar, mas, por outro lado, em relação à nossa vida, já sabes tudo.
- Absolutamente. Tudo salvo a resposta à Questão, que é a única coisa que eu ignoro e que não posso saber em relação a vocês. É a vossa liberdade. O vosso poder.
[…]»
 
Cyril Massarotto in deus é um tipo fixe. Contraponto.

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Publicado por FD às 23:46
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Quinta-feira, 23 de Julho de 2009
O rural de Aquilino

(Um convite para a releitura de Aquilino e o reencontro com o rural. Nem que seja para compreender esses - ainda nossos, ainda vivos! -, pequenos mundos …)

 

«A obra romanesca de Aquilino Ribeiro foi o primeiro e talvez o único olhar sem ilusões lançado sobre o mundo rural português, na sua parcela beiroa. Sem ilusões, porém com paixão, se por paixão quisermos entender, como no caso de Aquilino sucedeu, não a exibição sem recato de um enternecimento, não a suave lágrima facilmente enxugável, não as simples complacências do sentir, mas uma certa emoção áspera que preferiu ocultar-se por trás da brusquidão do gesto e da voz. Aquilino não teve continuadores […].
Dir-se-á que os mundos real e ficcional de Aquilino morreram. Talvez seja assim, mas esses mundos foram nossos, e essa deveria ser a melhor razão para que continuassem a sê-lo. Ao menos pela leitura.»
José Saramago in O Caderno de Saramago


Publicado por FD às 00:37
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Domingo, 19 de Julho de 2009
Bêbado, aleatório e quântico...

«[…] a expressão 'passeio aleatório' designa um conceito científico importante, cujo seu estudo tem ocupado matemáticos, físicos e outros cientistas.

 

Exemplo de introdução a este conceito é o de um passeio de um homem embriagado. Imagine um cavalheiro, já muito tocado, que sai do bar onde passou a noite a acabar com o stock de aguardente. À porta, avança pela rua e tem de escolher entre dar um passo em frente ou um atrás. Como os vapores não o deixam fazer qualquer escolha racional, escolhe uma das duas direcções perfeitamente ao acaso. Dá um passo. Pára. Toldado pelos eflúvios, dá novo passo, ou para a frente ou para trás, completamente ao acaso. Pára e dá novo passo, de novo ao acaso. A história repete-se ao longo da noite. Onde irá parar o cavalheiro?
Esta paródia pode servir de exemplo a um passeio aleatório em uma dimensão. Em cada momento, a variável X - a posição do cavalheiro - é incrementada ou subtraída de uma unidade, conforme dê um passo em frente ou a trás. Qualquer das escolhas tem probabilidade 1/2.
Podemos fazer alguns cálculos. Ao fim de 100 passos onde está o nosso herói? É pouco provável que esteja 100 passos à frente. Para isso teria de escolher a direcção fronteira 100 vezes seguidas. A probabilidade de isso acontecer é 1/2 elevado a 100. É tão pequena como a de se ter deslocado 100 passos para trás. Já a probabilidade de regressar ao local de onde partiu será a de se deslocar um total de 50 passos para a frente e 50 para trás. É cerca de 0,08, mesmo assim uma probabilidade pequena. Mas trata-se do valor mais provável.
É fácil perceber que o nosso herói estará algures entre 100 passos para a frente e 100 para trás, sendo plausível que dê quase tantos passos num sentido como no outro, pelo que o mais certo é não se encontrar muito longe da partida.
Imagine o leitor que somos transportados ao mundo quântico. Aí, é tudo tão difuso e estranho que o nosso embriagado ficará surpreendido, parecendo lúcido por comparação. As partículas que vivem nesse mundo minúsculo não têm uma posição definida e podem estar numa sobreposição de vários estados. Tudo se passa como se o embriagado ficasse super-embriagado e pudesse simultaneamente dar um passo em frente e um passo para trás, ficando nos dois lugares ao mesmo tempo. Só quando forçado o sistema define uma posição, adoptando um estado preciso. Imagine-se que se acorda o cavalheiro duplamente alcoolizado. Aí ele fica numa posição determinada.
Um movimento deste tipo chama-se 'passeio quântico'. […]
À partida, não parece que o passeio aleatório do nosso cavalheiro embriagado possa ter alguma utilidade para procurar a sua casa, por exemplo. Seria mais eficiente percorrer a rua de forma sistemática. O mesmo não se passa com o passeio quântico. Se o passeante super-embriagado estiver ao mesmo tempo por toda a rua, pode encontrar imediatamente a porta em causa. A computação quântica pode ser a nova grande revolução do século XXI. Só que não se faz com álcool.»
Passeio quântico, de Nuno Crato
Ler texto integral, no Expresso

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Publicado por FD às 00:41
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Sábado, 18 de Julho de 2009
Outros olhares

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/250 s; f/7,1; 200 mm; ISO 400)



Publicado por FD às 00:13
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2009
Mia Couto

«[…]

Esta humanidadezita, unida com os cinco dedos, estava afinal dividida: meu pai, o Tio e Zacaria tinham pele escura; eu e Ntunzi éramos igualmente negros, mas de pele clara.
            - Somos de outra raça? – perguntei um dia. Meu pai respondeu:
            - Ninguém é de outra raça. As raças – disse ele – são fardas que vestimos.
            Talvez Silvestre tivesse razão. Mas eu aprendi, tarde demais, que essa farda se cola, às vezes, à alma dos homens.
[…]
            A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
            Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
[…]»
 
Mia Couto in Jesusalém. Caminho.

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Publicado por FD às 01:09
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Miguel Sousa Tavares

«(…)

Como tantos outros, procurei sempre encontrar um significado mais grandioso, ou simplesmente mais humano, para aquela linda frase de que morrem jovens os que os deuses amam. Para que não seja apenas uma frase bonita ou para que não queira antes significar a crença terrível de que os deuses só amam os que morrem jovens, assim como bestas desumanas que se alimentam da juventude ceifada. Não sei a resposta: desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino.
(…)
Eu tinha vindo para me afastar do outro deserto sem fundo onde senti que me estava a precipitar; tu tinhas vindo em trabalho, para fazeres um filme e reportagens fotográficas. Eu só queria viajar e distrair-me, conhecer o deserto e estar com amigos; tu tinhas vindo com uma obsessão, como quem vem para uma expedição militar: querias, não apenas viver o deserto, mas aprisioná-lo, contá-lo, fotografá-lo, filmá-lo, enlatá-lo em cassetes de vídeo e rolos de película e levá-lo para casa e para o ecrã, nessa atitude de predador que os jornalistas gostam tanto de exibir. Não vos basta ver, é preciso roubar, também.
(…)
Tu não respondeste nada. Os teus olhos azuis, ainda estremunhados, o teu cabelo espalhado ao vento em todas as direcções, a tua cara de sono, de menina pequena, respondiam por ti – e, caramba, como tu ficavas bonita assim, sem precisares de dizer fosse o que fosse! Apenas o olhar em frente, como te tinha visto fazer em todos aqueles dias, no banco ao lado do meu no jipe. Tu falavas pouco e essa era uma das coisas de que eu gostava em ti. Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais, tu ficavas calada a olhar silenciosamente. Falámos sobre isso uma vez, e eu disse que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós os dois, tu eras, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio. Ah, não te rias, eu observei-te bem, sei do que falo!
(…)
Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia. Os fundamentalistas islâmicos, como os de Laghouat, tornaram-se sanguinários e incontroláveis e os próprios tuaregues revoltaram-se contra o poder de Argel.
Mas a razão principal não é essa. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo “nada”, eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. (…)»
 
Miguel Sousa Tavares in No teu deserto. Oficina do Livro.

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Publicado por FD às 01:32
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