Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Zafón

«[...] No outro dia vi uma menina que corria pela rua com um giz na mão deixando o rasto de uma linha na parede e tive a impessão de que, aos cinco anos, descobrira o sentido da vida. [...]»

 

Carlos Ruiz Zafón no prólogo de O Principe da Neblina. Planeta, 1ª ed., pp 11.


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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
Os silêncios de Cavaco

«[...] Ele não tem jeito, normalmente, para falar muito. Eu conheço-o relativa-me bem, há muitos anos, e o forte dele era o silêncio, ou era a palavra controlada. A partir do momento em que ele entende que o mandato deve ser exercido com mais conversa, ele corre sempre muitos riscos de descarrilar.»

 

Medina Carreira, TVI. Transcrição deste vídeo.

 

 

(Há políticos que manifestam uma estranha atracção pelo disparate. Ao contrário do que por vezes se pensa, estes políticos cultivam a imagem, a palavra controlada, o silêncio como forma de comunicação. Aquilo que aparenta ser um comportamento de bom-senso, é nestes políticos manifestamente um mecanismo de autodefesa, que se desmorona ao menor sinal de contrariedade. O problema é que este cair da máscara revela quase sempre um carácter mesquinho, enquadrado num mundo pequenino, sem cor, sem dúvidas e sem enganos - perfeito, nesta concepção irrealista de que o centro do mundo está neles  próprios. Idiota, no sentido de que aparentam sempre que lhe devemos qualquer coisa - eles fazem-nos um favor e nós devemos estar agradecidos.

 

Que saudades da "Música e o Silêncio" de Vitorino D'Almeida, daquela demonstração sublime de que não há música sem silêncio, como não há luz sem sombra nem vida sem morte - como é bom ouvir as palavras sem gritos e o silêncio sem desculpas. E, no limite, como forma de ignorar estes políticos, temos sempre os "sons do silêncio" como refúgio:) 

 

 

«Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

"Fools", said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sounds of silence»

 

The Sounds of Silence. Paul Simon.


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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
O Bom Malandro

(O que mais gosto no Mário é a linguagem simples e directa, o humor certeiro e aquele ar malandro depurado pela idade. Lembra-me um pouco Clint Eastwood e os seus filmes, com imagens cruas e diálogos mínimos, sem adjectivos inúteis)

  

«[...]

O meu irmão apareceu-me no consultório, problema de laringite, nada de grave. Conversámos.

- Tenho uma namorada nova - revelou ele.

- Bravo. E é bonita?

- Não tanto como a Mau. Cheguei a contar-te porque nos separámos?

- Nunca, Heitor.

- Ela tinha um caso com a nossa prima Li.»

 

Mário Zambujal in Longe É Um Bom Lugar. Clube do Autor, 2ª ed. pp 49.


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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Azedume

«Cavaco Silva veio solenemente declarar que Portugal precisa de ter uma economia a crescer e menos desemprego. Uma finalista dum concurso de “misses” não diria melhor. E acrescentaria “a paz no mundo”.»

 

No Blasfémias.


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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Tulipas de Pingo Doce

(A notícia é recente: "Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal". Não me apetece tecer grandes comentários, mas de repente lembrei-me de um texto, já com uns bons anos, de A. Barreto - quem diria... Aqui fica, apesar de já antes me ter referido a ele.)

 

 

«A minha pátria é uma conta bancária


Crimes, casamentos e luta entre poderosos: eis três dos mais atraentes condimentos da crónica que excita toda a gente. Nem as misérias humanas, que as televisões transformaram em notícias, destronam aqueles clássicos. Apesar disso, a ficção vem desvalorizando o crime. E o casamento, por causa do sexo, já não é o que era. Só a luta entre os ricos mantém toda a sua potencialidade. As disputas entre a família Champalimaud, o Govemo, os banqueiros portugueses e um banco espanhol estão nesse caso.

É interessante verificar como os argumentos, de qualquer lado, são comuns. A palavra dada, os compromissos, a honra, a liberdade, a transparência, a legalidade e o interesse nacional são invocados por todos. Rapidamente se percebe que a querela é política. O que está em causa é o poder. E, como nos filmes, a vingança. Depressa se compreende que os participantes neste enredo têm as suas interpretações dos valores em causa. A família Champalimaud, por exemplo, cujas contribuições para a história contenciosa portuguesa são famosas, tem ideias próprias sobre a palavra, a honra e a pátria. E todos os restantes têm as suas ideias sobre tais vocábulos e realidades.

As profissões têm códigos de conduta. Os estados e as condições também. Da ética empresarial, por exemplo, não fazem parte a palavra, a honra e o patriotismo. Pode um empresário, como ser humano, cultivar tais valores. É melhor que assim seja. Mas, como profissional, não é o que se Ihe pede. Exige-se-lhe, isso sim, que ganhe. Podemos não gostar. Mas as coisas são assim.

Compare-se com a ética política, por exemplo. Ou com a do desporto. Para já não dizer a militar. Diferentes umas das outras, integrando valores diversos, têm princípios afins. Entre eles: ganhar. É sabido como, na guerra, se perdoa tudo ao nosso soldado, enquanto tudo se condena ao adversário. Ou como, no desporto, o fim justifica os meios. Ou ainda como, na política, para uma vitória eleitoral, vale tudo.

É infeliz que assim seja. Gostamos mais de um “cavalheiro”. Admiramos o fair play. Elogiamos quem, a ganhar mal, prefira perder bem. Apreciamos os que respeitam regras de generosidade. E sublinhamos o princípio moral de que os fins não justificam os meios. Eis valores que nos permitem viver numa meIhor sociedade do que aquela onde apenas vigorem as éticas do sucesso e da vitória.

Mas muito disso é literatura. Aos nossos soldados perdoa-se e exige-se tudo, sobretudo em campo de guerra, onde todos os princípios morais estão suspensos. As hordas desportistas estão quase sempre à beira do massacre do inimigo, literalmente. À procura da vitória, os militantes políticos estão geralmente prontos para tudo. À espera de lucros, empresários e accionistas “não olham a meios”. Um empresário não tem de ter palavra e honra. Um homem sim. Mas um empresário tem de ter balanços e cash flow.

Previsivelmente, bairristas ou seguidores, soldados ou accionistas, evitam argumentar com os seus interesses: eles sabem que, fora das profissões, algures no património de uma comunidade, há valores mais universais que poderão formar uma moral comum. Ou uma cultura. Por isso os argumentos são sempre gerais e abstractos. Para defender o seu interesse, o aficionado, o guerreiro ou o capitalista afirmarão sempre a sua honra, a palavra, o interesse nacional, a justiça e a ética.

Estamos pois no reino de uma semântica social e de códigos de conduta privados. Não duvido de que Champalimaud seja patriota, com a sua ideia própria de pátria, urna pátria cujo governo lhe deixe fazer o que quer. No exercício da sua profissão, para que tem, dizem, excepcional talento, fez o que sabe: negócios, bluffs, ousadias, manobras de diversão e mais-valias. Pôs em prática, no seu interesse, os desejos de internacionalização tão apregoados pelas autoridades. Se faltou a regras de cortesia, a compromissos e a palavra dada, terá sido em nome da sua empresa, que é a sua pátria.

A este propósito, o argumento que defende o capitalismo nacional é débil. Com efeito, a vontade de preservar em mãos nacionais o capital de um grande grupo não resiste à primeira prova. E se o interesse desse capitalista nacional é o de vender a quem melhor paga? E se o interesse do grupo é o de se submeter a um mais poderoso? Será que a decisão de vender a estrangeiros, tomada por um reputadamente bom empresário português, faz dele um traidor?

Quanto ao Governo, aos governos, sobretudo o actual, mas também o anterior, o que lhes critico é de não saberem o que querem. Ou antes, de quererem tudo. Investimento estrangeiro e capitalismo nacional. Multinacionais e capitalistas portugueses. Grupos fortes e controlo político. Internacionalização e nacionalismo económico. Grandes barões e capitalismo popular. Centros de racionalidade e democracia económica. Livre iniciativa e selecção dos bons capitalistas. Das leis gerais sobre privatizações, aos diplomas de alienação, raramente os governos foram precisos quanto aos papéis respectivos do Estado e do mercado. E nas negociações concretas, sempre o Estado demonstrou querer guardar, informalmente, prerrogativas que não assumia explicitamente. O que em resumo se diz: não sabem o que querem.

Aprendi, há muitos anos, que a neutralidade pode ser um defeito. Houve até quem dela fizesse o “último círculo do inferno”. Mas a vida também me ensinou a reconhecer que há combates que não nos dizem respeito. E que, nesses, só tomam partido os interessados, os fanáticos e os parvos. Pela sucessão de gestos de um e de outro, entre o Governo e Champalimaud, venha o Diabo e escolha. E que tenha bom proveito.

Completamente bêbedo, um tenor de ópera deu, em Londres, conferência de imprensa. Ladeado de dois membros do Governo português, que ali se deslocaram de propósito, defendeu a realização de um campeonato de futebol em Portugal. Tendo-lhe alguém perguntado porquê, respondeu: “Porque o Governo português foi o primeiro a pedir.” Também aqui, pelos vistos, vale tudo.

(20. 6. 1999)

 

António Barreto. Uma Década. Retrato da semana 1991-1999. Relógio d'água. pp 499-502.


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Kundera

«[...]

Nunca acabaremos de criticar os que nos deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter o passado mais do que uma miserável parcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia enquanto existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

Imagino a emoção de dois seres que voltam a ver-se passados anos. Outrora frequentaram-se, e pensaram por isso estar ligados pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. As mesmas recordações? É aqui que o mal-entendido começa: não têm as mesmas recordações; os dois guardam do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um tem as suas; as suas recordações não são parecidas; não se encontram; e nem sequer quantitativamente são comparáveis: um recorda-se do outro mais que o outro se recorda dele; primeiro porque a capacidade de memória difere de um indivíduo para outro (o que seria ainda uma explicação aceitável para cada um deles), mas também (e é mais penoso admiti-lo) porque não têm a mesma importância um para o outro. Quando Irena viu Josef no aeroporto, lembrava-se de cada pormenor da aventura passada de ambos; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro segundo, o seu encontro assentava numa desigualdade injusta e revoltante.

[...]»

 

Milan Kundera in A Ignorância. D. Quixote, 1ª ed. pp 101-103.


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Sábado, 10 de Dezembro de 2011
Tráfico Cultural

(Poderia discorrrer à volta desta idéia, mas dificilmente a exporia de forma tão clara, objectiva e simples. Por isso limito-me a transcrever todo o texto daqui)

 

«Sou pelo tráfico cultural proporcionado pela amizade. Não há melhor forma de se chegar a um disco, a um livro ou a um filme do que a opinião de um amigo. As estrelinhas dos amigos até podem ser enganosas mas são inteiramente confiáveis – porque nos conhecem, as nossas manias e aversões e as nossas apetências e apegos. Quando um amigo diz “tens de ir ver isto porque isto é a tua cara!” torna-se no instante mais importante do que os mais significativos críticos e do que o melhores suplemento cultural da Nação. Traz, para usar o termo, um suplemento de afectividade que merece a maior das considerações. Mesmo que esteja  a atirar completamente ao lado.

 

Não quero menorizar a comunicação social escrita – até escrevo, muito confortavelmente, crónicas sobre livros e restaurantes para jornais e revistas. Quero é tirar aos recenseadores o peso da responsabilidade de, em exclusivo, nos mostrar “a cultura”. Alguma da aversão que existe em relação a alguns críticos e suplementos tem a ver com a excessiva responsabilidade que lhes é atribuída. Se as pessoas chegassem aos “objectos culturais” por si, sem mediações de maior, ninguém iria culpar ninguém por ter ido ver um filme multi-estrelado por uma publicação de referência que “afinal é uma grandessíssima merda”.

 

Ninguém vai levar a mal um amigo que nos levou a ler um livro que é uma seca. Mais dificilmente isso acontece com “o crítico”. Que é alguém a quem atribuímos uma autoridade que, coitado, nem sempre tem – está muitas vezes tão preso a deslumbres e a aversões e animosidades, até pessoais, como nós. Sim, nisto da cultura é importante ser-se mais pela iniciativa e responsabilidade pessoais. Hoje em dia é muito fácil fazer-se a escuta de um disco – na net e nas lojas. Chegar a uma livraria e espreitar um parágrafo. E é muito fácil entrar num cinema e num teatro (há tantos), sem que levar na mala uma data de conselhos que podem ser ruído para escolhas que se desejam o mais livres  que se puder.

 

Demasiado público tem com os jornais, as televisões, as rádios e agora a rede a mesma relação que muitos cidadãos têm com o Estado: culpam-nos de tudo o que de mal - e ocasionalmente de bom - tem acontecido culturalmente nas suas vidas. Tá mal, tá. Se petiscassem mais cultura por sua conta e risco talvez a coisa fosse diferente.»

 

Petiscar a Cultura. Nuno Costa Santos in Sinusite Crónica.


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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Adelino Maltez

(Não gosto da confrontação entre o desgraçado que comeu o pão que o diabo amassou e o privilegiado que nem consegue imaginar o ardor desse pão... As coisas na realidade não funcionam assim, e mesmo que aparentemente por vezes funcionem nunca se traduzem nesta dicotomia moral. Reconheço, no entanto, que algum do pão tem um pouco deste diabo no azedo sabor da massa crua, evocando cobardemente que "não temos heroicidade na memória do sofrimento, pelo que não há condições para adequada libertação". Só por isto vale a pena citar este post.)

 

«A grande originalidade dos portugueses actuais face à maioria dos colegas da UE é que não temos heroicidade na memória do sofrimento, pelo que não há condições para adequada libertação. Não resistimos aos soviéticos nem as nazis, não tivemos guerras civis e a última memória viva como povo em sofrimento, ou é minoritária, a dos antifascistas, ou foi passada em territórios de além-mar, caso dos soldados. O que temos de prosperidade não foi conquistado existencialmente, veio do voto útil. Reaprender a conquistar a vida vai ser doloroso para uma maioria sociológica, treinada para a cobardia.»

 

José Adelino Maltez. Folhas do meu cadastro.


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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Hellas

Os tempos que correm são impróprios para os actuais líderes europeus, tão frágeis que se revelam incapazes de tomar uma única decisão em tempo útil. Só age assim quem olha exclusivamente para o seu umbigo, deslumbrado com a suave concavidade gordurosa, e incapaz de perceber nele a impressão digital de uma origem solidária e universalista. Destes não rezará a história...

A opção de Papandreou, pelo referendo, é incompreensível? São sempre assim as reacções à humilhação!

Significa um passo para o abismo? Não me parece: um olhar optimista para o futuro encontrará sempre esses abismos, esses momentos de ruptura, que a história nos demonstrou serem determinantes na evolução das civilizações. O problema é mais simples: adquirimos o hábito de reduzir o tempo à mais pequena fracção possível, tempo esse incompatível com a essa evolução. Há momentos em que se deve ser impacientemente contemplativo...


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
... (ainda) Lobo Antunes

(O Expresso publica cinco textos de cinco "criticos literários" sobre o livro "Comissão das Lágrimas", de Lobo Antunes. Parece que não sou o único leitor angustiado...)

 

 

«[...] Os acontecimentos de 1977 são tão trágicos e fortes que se fica com a vontade de que "Comissão das Lágrimas" fosse um romance sobre a Comissão das Lágrimas; porém, Lobo Antunes afasta-se desse caminho, o que lhe interessa são as vozes que vivem na cabeça da narradora, cujo pai foi um dos torcionários, e que explica agora pecados alheios dando voz a mortos e vivos. O texto, torrencial mas elíptico, cruza tempos e testemunhos, repete frases e estribilhos, comentários racistas, memórias de família, conversas de seminaristas e coristas, associações livres, confusas e poderosamente poéticas. [...]

Pedro Mexia

 

«[...] E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os evazia e tudo devolve, transformado no artifíco gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesmo.»

António Guerreiro

 

«[...] Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é aqui também que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo que maravilhados). [...]»

José Mário Silva

 

«[...] E mais uma vez em Lobo Antunes seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto de que tal coisa possa existir.»

Ana Cristina Leonardo

 

«[...] O mesmo Lobo Antunes criou uma persona que inventou a literatura como "evento" e o escritor como "personagem literária" e vagamente angustiada, pendente dos grandes temas, enquanto nos convida a torpedear a vexata quaestia: o livro presta? Nem sempre. Os títulos continuam soberbos e as entrevistas também. Lobo Antunes é um virtuoso do florete e do floreado e pratica uma esgrima que prescinde das perguntas piedosas dos jornalistas. Há anos que não consigo acabar um livro dele. Acabei este. Monólogos da consciência, fragmentos de memória e passado, destruição de tempo e lugar que passam a unidades imateriais da escrita, nomes que não existem na economia narrativa nem na voz narrativa. Aparecem e desaparecem. [...]»

Clara Ferreira Alves

 

Expresso. Suplemento Actual. Nº 2033. 15.10.2011.


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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
António Lobo Antunes

(Ó António, começa a ser quase impossível ler o que escreves. Não é que espere uma história escorreita e simples - até porque sei que não gostas de contar histórias, mas de estar perto do coração da vida, signifique isso o que significar…-, mas apenas uma escrita que não me canse, não me deixe de rastos ao fim de uma hora de leitura. Já foi difícil com Ontem Não Te Vi Em Babilónia e com Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, os teus dois últimos livros que li, mas agora é quase insuportável. Admito que esta não seja a noite para ler mas, que diabo, estar mais perto do coração da vida é estar mais longe da compreensão da escrita?

Transcrevo, mas transcrevo mesmo, palavra a palavra, sem scanner, numa tentativa de melhor entender essas palavras, o iníco do terceiro capítulo do teu livro, prometendo que amanhã farei outra tentativa de leitura).

 

 

«Se as vozes não voltam não se escreve este livro: que dizia ela, que digo eu que não seja ditado pelas folhas e as coisas ou então desconhecidos na minha cabeça a discorrerem sem fim, sementes de avenca falando de nós, eu a convocar ambulâncias e joelhos doentes, a repeli-los

         - Enganei-me

         enquanto a minha mãe coxeia a sua desgraça, feita de granito em labaredas, e o meu pai, atrás dos cavalos e bispos de xadrez, à espera que o matem quando sou eu que desejam matar, bem lhes sinto as ameaças desde Moçâmedes

         - Ai Cristina

         assim que o mar de um lado, e o deserto do outro, principiaram a empurrar-me para o interior do meu corpo em que fui tão grande em pequena e me limito agora a um cubículo onde explodem granadas que me desfazem osso a osso, não olho para ninguém, não respondo, permaneço quieta na Clínica e quieta na sala, no desejo que não dêem  por mim nem pela minha mãe na província, diante do espantalho da horta

         - Qual de nós dois é a Alice?

         enquanto o avô tacteia o mundo com a cabeça ao alto dos cegos, convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes

         - Rapariga

         um espantalho de boina e sobretudo, com restos de luvas nas canas dos braços, que os tordos não respeitam, tronco de palha com um seixo a imitar o coração a contrair-se lá dentro, foi o avô quem introduziu o coração na palha

         - Deixem-no viver como a gente

         e no de a mãe se aproximar a pedra viva latia, como tudo late também em África incluindo os defuntos, era necessário perguntar antes de os enterrar

         - Tem a certeza que faleceu?

         eles a pensarem na resposta, apesar de cheirarem a cinzas e capim ardido, e todas aquelas moscas passeando na pele

         - Acho que sim mas não tenho a certeza

porque convém medirmo-nos com atenção a fim de saber como estamos, avaliar o pulso, colocar um espelho na boca e notar se embacia ou não embacia, sugerir

         - Mete-se na sepultura a ver

         e no caso de ser incómoda a terra na cara eles previnem

         - Afinal enganei-me

         porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina, chuva para cima em lugar de para baixo e os rios não no sentido do mar, direitinhos à gente, damos pelos finados à mesa, cruzamo-los nas ruas, empregam-se nas estradas a nivelar o alcatrão, o avô da minha mãe desconfiado

         Não andas a mentir?

         e a prova de que não ando a mentir está em que você a disfarçar as ternuras

         - Rapariga

         depois de séculos à conversa com os choupos […]»

 

António Lobo Antunes in Comissão das Lágrimas, pp 49-50. D. Quixote, 3ª ed.


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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
«os jotas»

(Por muito que me custe, às vezes tenho que concordar com o JPP...)

 

«[…]

Há porém um pequeno problema que, quem conheça os “jotas” que não tem actividade profissional que não seja a política (ou que tiveram uma breve profissão  com um estatuto muito inferior ao que tem na política), é que sendo aquela a sua profissão precisam desesperadamente de não ser despedidos. Para não serem despedidos precisam que o patrão, o aparelho partidário, ou uma personalidade que os apadrinha, nunca os deixe cair. Não tem por isso a liberdade fundamental em política: dizer que não.

Tornam-se especialistas em manobrar o sistema de apoios e alianças necessários para, de legislatura em legislatura, irem a deputados, ou, de eleição em eleição, irem a vereadores ou serem assessores de qualquer coisa. Têm que estar sempre de bem com os que lhes dão os lugares, serem mais papistas do que o papa nos rituais de obediência partidária ou de intriga que explicam os sucessos da vida partidária. Como são profissionais, ou seja não tem outro emprego, não podem dar-se ao luxo de terem opiniões próprias, de serem “indivíduos”, mas apenas funcionários que, como não podem perder o emprego porque não tem outro, encarnam quase sempre os piores defeitos da vida política.»

 

José Pacheco Pereira. A geração dos políticos profissionais no Abrupto.


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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
Movimento translação

Em vários sítios da net é possível encontrar uma estória* que me parece verosímel, mas cujo sentido não percebo muito bem. É que, neste tipo de coisas, não acredito que ninguém perca, como aparentemente acontece. Ou pretende-se apenas demonstrar que na economia, nesta economia de casino, o importante é a circulação do capital, onde aparentemente todos, ou quase todos, ganham? Não foi este movimento de translação, à volta de um sol imaginário, que nos levou até aqui?

 

*A estória é mais ou menos assim:

Um cliente entra no hotel, pergunta o preço duma estadia, deposita uma nota de 100 € no balcão e pede para ver o quarto. O recepcionista entrega-lhe a chave e corre com a nota de 100 € na mão para pagar a sua conta na mercearia mesmo em frente. O merceeiro pega na nota de 100 € e entrega-a ao fornecedor de frutas que lhe acabava de entregar a encomenda. O fornecedor de frutas entra no bar ao lado e entrega a nota de 100 € a uma prostituta que por sua vez se dirige ao hotel e deixa a mesma nota de 100 € sobre o balcão da recepção para pagar a dívida da última estadia… Entretanto o cliente do hotel desce e, na recepção, recolhe a nota de 100 € dizendo que não gostou do quarto.


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Terça-feira, 13 de Setembro de 2011
Triste fado

(O que o Miguel diz parece tão óbvio que até me espanta ele dizê-lo. Este triste fado um dia acaba mal, mesmo que pareça um despropositado conjunto de actos de uma comédia à portuguesa, antes da previsível tragédia grega…)

 

«[…]

Lembro-me de uma coisa que ele disse e que eu fiquei…, fiquei assim um bocadinho, nem sei como definir… Disse uma frase: quando eu for primeiro-ministro. Eu fiquei a pensar na possibilidade e realmente lembro-me que houve um director do Público que uma vez escreveu: Durão Barroso jamais chegará a 1º ministro de Portugal. Muita gente pensava o mesmo na altura, e ele não só chegou a 1º ministro como chegou a presidente da União Europeia. Aliás, até nos abandonou como 1º ministro para ir para presidente da União Europeia. Quando ele fugiu, eu estava fora de Portugal e telefonaram-me a dizer que Jorge Sampaio tinha nomeado Pedro Santana Lopes para 1º ministro. Eu também achei que não era possível, achei que não era mesmo possível. Depois disso apareceu o Pedro Passos Coelho e eu também achei que não era possível. Mas quem é Pedro Passos Coelho, o país não sabe, andou na JSD, anda aí…, vamos usar a expressão: anda aí a cacicar o partido, ninguém sabe mais nada dele, pronto. Chegou a 1º ministro. E António José Seguro seguiu o mesmo percurso de Pedro Passos Coelho, não só na JS como também no caciquismo das bases do partido. E por isso ele chega ali sem que ninguém lhe conheça uma ideia, um projecto, uma causa…, diz que está em nome de causas, eu não conheço nenhuma.

[…]

Acho que ele não tem substância nem estilo para fazer política. Faz-me uma enorme impressão pensar que o PS, que é um dos partidos fundadores da democracia portuguesa, que já teve à sua frente gente com a categoria de um Mário Soares, um Jorge Sampaio, um António Guterres, tenha chegado ao António José Seguro. Faz-me a maior impressão. E eu acho que de certa forma temos que começar a meditar como se formam políticos em Portugal, nomeadamente como é que eles chegam ao topo.

[…]»

Miguel Sousa Tavares. Comentários no Jornal da Noite, SIC. Transcrição do vídeo.


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Domingo, 4 de Setembro de 2011
O banco do JPP

... mas que saudades que eu tinha da "Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro"!


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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011
The Times They Are A Changing

 

(graffiti num muro, já não sei bem onde...

Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/11; 1/250s; ISO 400; 24 mmm)

 

«Come gather 'round people

Wherever you roam

And admit that the waters

Around you have grown

And accept it that soon

You'll be drenched to the bone.

If your time to you

Is worth savin'

Then you better start swimmin'

Or you'll sink like a stone

For the times they are a-changin'.

 

Come writers and critics

Who prophesize with your pen

And keep your eyes wide

The chance won't come again

And don't speak too soon

For the wheel's still in spin

And there's no tellin' who

That it's namin'.

For the loser now

Will be later to win

For the times they are a-changin'.

 

Come senators, congressmen

Please heed the call

Don't stand in the doorway

Don't block up the hall

For he that gets hurt

Will be he who has stalled

There's a battle outside

And it is ragin'.

It'll soon shake your windows

And rattle your walls

For the times they are a-changin'.

 

Come mothers and fathers

Throughout the land

And don't criticize

What you can't understand

Your sons and your daughters

Are beyond your command

Your old road is

Rapidly agin(g)'.

Please get out of the new one

If you can't lend your hand

For the times they are a-changin'.

 

The line it is drawn

The curse it is cast

The slow one now

Will later be fast

As the present now

Will later be past

The order is

Rapidly fadin'.

And the first one now

Will later be last

For the times they are a-changin’.»

 

The Times They Are A Changing. Bob Dylan.

(aqui, porque não?)


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Publicado por Fernando Delgado às 00:56
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
Herman Hess

«[…]

         Ficará para sempre na minha memória a imagem das caudas dos pavões brilhando nas árvores altas ao luar, e das sereias resplandecendo numa doçura prateada ao emergirem das águas, à beira-mar sombreada entre os rochedos. E de como, solitariamente, sob o castanheiro junto da fonte, o magro Dom Quixote estava de primeira sentinela da noite, enquanto os últimos foguetes do fogo-de-artifício caíam tão suavemente na noite de luar e o meu colega Pablo, coroado de rosas, tocava a charamela para as raparigas.

         Ah, qual de nós teria imaginado que o círculo mágico se iria quebrar em tão pouco tempo. Que quase todos nós – e também eu, também eu! – nos iríamos tornar a perder nos ermos monótonos da realidade rotineira e rotulada, curvando-se, como funcionários públicos e empregados de balcão depois de uma patuscada ou de um passeio de domingo, nova e insipidamente no dia-a-dia do trabalho!

[…]»

 

Herman Hesse in Viagem ao País da Manhã. Cavalo de Ferro, 1ª ed., pp 26-27.


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Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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Domingo, 7 de Agosto de 2011
(a lógica da) batata

«[…]

O consórcio internacional, que sequenciou 840 milhões de bases (o humano possui cerca de 340 milhões) do ADN (ácido desoxirribonucleico) da batata para chegar ao resultado agora publicado, enfrentou inúmeras dificuldades no mapeamento dos genes, entre elas a grande heterozigosidade que existe mesmo numa única das inúmeras variedades da batata. A variabilidade genética, específica e singular a cada indivíduo (o mesmo é válido para nós), apresenta uma elevada frequência na batata.

[…]

O conhecimento da composição e estrutura do seu genoma pode permitir a redução substancial do tempo, actualmente de 10 a12 anos, necessário para obter por cultivo novas variedades. Isto é importante, quer para encontrar variedades resistentes a pragas e doenças que afectam o seu cultivo, quer para obter tubérculos mais produtivos e com maior qualidade nutritiva.

A batata, cujo nome científico é Solanum tuberosum L., foi "encontrada" pelos espanhóis no Peru em 1536. […]»

 

Ler texto integral em De Rerum Natura


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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011
Garota de ipanema

(Não me tinha apercebido de como é lindo o poema integral da canção Garota de Ipanema. Parece que Vinicius e Jobim não gostaram dos versos iniciais, ou os seus instintos musicais levaram a este corte. Com toda a razão, como veio a demonstrar-se…Mas gosto do poema completo, com os versos iniciais, embora com várias versões, uma das quais reproduzo abaixo – ajudam a imaginar Jobim e Viniciusos na esplanada do bar de ipanema, onde bebiam uns copos, e de onde assistiam ao passar da garota, que até tinha nome, mas ficou de ipanema… Não é fácil encontrar a canção “completa” - este é um dos poucos vídeos.)

 

Vinha cansado de tudo

De tantos caminhos

Tão sem poesia

Tão sem passarinhos

Cansado da vida

Cansado do amor

Quando na tarde vazia

Perdida no espaço

Eu vi a menina

Que vinha num passo

Num doce balanço

A caminho do mar

 

Olha que coisa mais linda

(...) 


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Terça-feira, 26 de Julho de 2011
valter hugo mãe

«[…]

a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico. presa às atitudes dos homens viciara-se em homens, e nada do que fizesse seria honra para qualquer pai que a tivesse. assim era como se dizia, já não era filha de ninguém, se até os pais se recusavam a recordar o nascimento de tão atrofiada mulher, parida entre pernas como feita para alívio, nunca para viver. era disforme em pequeno, ponto pequeno, já feia para assustar as pessoas, e menina, diziam, vai ser bicho do diabo a distribuir o pecado em carne tão azarada. e era nos azares da sua carne que se rejeitava a filiação, para isso se deitou a teresa diaba às sortes, e como vingou não se imagina senão por forças demoníacas que a alimentaram. diaba, grunhindo e zurzindo em busca de prazer, pendurada em galho de homem o dia inteiro, batendo os raquíticos braços como asas, sem poder voar, sem andar direito, nada. todos lho diziam, anda, animal, some-te daqui a ver se te enfias numa toca e não levas uma pedrada. e ela sorria na sua meia loucura e rondava quem lhe falasse. como tive de lhe falar quando a vi, ou se calava do que viu, ou punha-lhe lâmina ao pescoço para a calar de vida. era assim simples, se abres a boca para espalhar o que ouviste sais deste mundo para outro. ela, saia levantada, grunhia risos e pedia-me que entrasse, entra aqui como de costume, estou com saudades tuas, meu amor.

 

o aldegundes duvidava da bondade de se aliviar na rapariga. era das coisas que ouvia na igreja, que humilhante seria fazer dos outros algo impensável. como pô-la de costas quando deus as fizera de frente. e nada de costas, como assim lhe dava prazer, talvez porque tão novo não lhe tivesse crescido o suficiente que enchesse à frente o que era a mulher, e pelas costas melhor se sentia. mas nada tinha importância, como lhe explicava, a ela cumpriam-lhe as forças negativas mais do que as positivas, e ao pôr-se nela havia que temer muito pela própria alma, mais do que pela dela. mas não por deus, que despreza as mulheres e as manchou de pecado, mas pelo diabo, à espreita no corpo delas a tentar agarrar-nos a alma a partir da ponta do badalo, dizia-lhe. ele olhou-me sem felicidade nem amargura, apenas resignado como o seu tempo de crescer, ultrapassado da sarga, olhando-a como a vaca velha e desnatural que não devia nunca parecer-lhe bela.

 

com alguns receios voltei ao corpo da teresa diaba eu também. […]»

 

valter hugo mãe in o remorso de baltazar serapião. Ed. Alfaguara, pp.75-76.

 


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Terça-feira, 19 de Julho de 2011
Desvios colossais

Tomar - Festa dos Tabuleiros (Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/6,3; 1/80s; ISO 400; 40 mmm)

«A expressão “desvio colossal”, de acordo com a informação que julgo ter sobre o assunto, deve-se a uma - como hei-de dizer… - omissão de palavras que foram usadas entre “desvio” e “colossal”…, isto é, foi usada a expressão “desvio”, foram ditas algumas palavras, após as quais apareceu “colossal”… Fazendo a eliminação das palavras intermédias fica “desvio colossal”. A minha interpretação da frase entre “desvio” e “colossal”, é que foram detectados desvios e que a consolidação orçamental nos vai exigir um trabalho colossal. Esta versão é da minha pura responsabilidade. Eu não tenho nenhuma informação autêntica sobre as palavras que terão sido proferidas entre “desvio” e “colossal”. Mas esta versão agrada-me particularmente.»

 

Vítor Gaspar, Ministro das Finanças. 14.07.2011.

 

Esta versão (transcrita deste vídeo) é da minha pura responsabilidade. Não faço comentários, porque não se fazem comentários sobre sumários executivos (reconhecendo que, neste caso, se trata de uma versão muito avançada dos templates usados pelos burocratas "bruxelenses"). Eu não tenho nenhuma informação autêntica, mas suspeito que se trata de um sumário executivo de relatórios que manifestamente (ainda) não existem. Esta versão da "coisa" agrada-me particularmente.



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Quinta-feira, 14 de Julho de 2011
Sinais

 

 

 

 

Numa qualquer rua de Tomar, à margem da Festa dos Tabuleiros.

 

 

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/5,6; 1/160s; ISO 400; 106 mmm)

 

 



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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Gonçalo Tavares

«[…]

      O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem podia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

      Quem iria contestar a “vida imoral” de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

      Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

      Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

      De certa maneira, era isso que Buchmann desejava: ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima.

[…]»

 

Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica. Caminho, 5ª ed., pp 235-236.


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Domingo, 3 de Julho de 2011
Espuma dos dias

«Há um provérbio popular que, devidamente adaptado, se pode aplicar com proveito a governos: "Pelo andar da política fiscal se vê quem vai lá dentro". Porque, sendo a política fiscal um instrumento de redistribuição da riqueza e do rendimento, ela espelha, mais do que nenhuma outra, o rosto de uma governação.

Como se propõe um governo obter recursos?; como se propõe redistribui-los?, são questões cujas respostas dizem quase tudo o que quisermos saber sobre esse governo mas tivemos vergonha de perguntar.

Com o corte de 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, saídos (na verdade nem lá chegarão a entrar) dos bolsos de trabalhadores e reformados.

E para onde irá tanto dinheiro? Com mais 800 milhões poupados em "acomodações" na despesa do Estado que "o senhor ministro das Finanças detalhará nas próximas semanas" (preparemo-nos para o pior, designadamente para mais cortes nos apoios sociais e na saúde), servirá para compensar os 1 600 milhões que o Estado deixará de cobrar com a redução de 4% da TSU das empresas. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, mais as "acomodações" ainda a anunciar, irão parar às contas bancárias dos empresários. Será reconfortante ver passar um Ferrari (pelo menos em regiões deprimidas como a do Vale do Ave) e imaginar que talvez uma porca de um daqueles pneus seja o nosso subsídio de Natal.»

 

Manuel António Pina. Pelo Andar da Carruagem. Jornal de Notícias.


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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
MAMAOT

A partir de amanhã vou trabalhar no MAMAOT*. Confesso alguma familiaridade pessoal e profissional com os A’s - conheço alguma coisa do primeiro e tenho umas vagas ideias do segundo. Quanto ao M, ao O e ao T, registo a ousadia de pescar um pouco ao acaso letras no alfabeto. Espero que esta sopa de letras não se transforme num albergue espanhol**.

 

*Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território

 

** O filme de Cédric Klapish não tem culpa nenhuma disto. O lugar onde tudo pode acontecer, num caldeirão de culturas, até é interessante (verdade se diga que o caos é sempre interessante...). Tenho a certeza que o vizinho do MAMAOT, a SEC de Francisco José Viegas, adora este filme...


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Vancouver

Dois jovens beijam-se no asfalto de uma qualquer avenida de Vancouver, no meio de um confronto entre a Polícia e adeptos de hóquei no gelo. Até há um vídeo, com a história contada pelos próprios, mas o importante é mesmo a imagem. Esta é uma daquelas fotografias que apetece imprimir e colar na parede ao lado de algumas outras, de outros lados, de outras guerras...


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Domingo, 19 de Junho de 2011
Copianço

(Isto é copianço: o texto seguinte foi roubado daqui! Entretanto declaro que gosto do lápis e borracha, simplesmente porque me lembram os tempos em que aprendi a olhar para o lado, nem sempre, ou quase nunca, para copiar… Parece que os srs. futuros juízes utilizaram o computador - não tendo a certeza que tal presunção tecnológica se possa considerar copianço... Copianço é mais simples, mais primário, mais ingénuo, mais puro: é como partilhar qualquer coisa que só um sabe exatamente o que é. E, srs. juízes, se alguma vez tiverem que julgar alguém por copianço - sim, seria a extrema crueldade, mas ninguém vos livra dessa hipotética situação -, sejam benévo-los, não pela vossa pesada consciência, mas simplesmente porque esse pecado pode corresponder a uma extrordinária descoberta e correspondente partilha daquilo que só um sabia... Usem o lápis, depois a borracha. Perdoai-lhes. Amén!)

 

«Os romanos escreviam com estiletes de chumbo em papiro e não podiam apagar ou corrigir. Esse meio de escrita foi usado até ao século XVI, altura em que foi descoberta na Grã-Bretanha uma grande jazida de grafite quase pura que possibilitou o fabrico de lápis a partir deste material. Tornou-se assim possível apagar, mas só após a descoberta da vulcanização da borracha se atingiu a qualidade de hoje.

A grafite é uma forma alotrópica do carbono como o diamante ou os fulerenos. No processo actualmente usado para produzir lápis, grafite e argila são pulverizadas e misturadas em água. E é a proporção relativa de argila e grafite que determina a dureza do lápis: mais argila, mais duro. A massa resultante é feita passar por orifícios redondos, levada a alta temperatura e finalmente mergulhada numa cera. A madeira dos lápis é de cedro que não lasca e tem cheiro e cor de nobreza ancestral. O aroma é devido ao cedrol e outros terpenos, mas saber isso não retira sabor às memórias de infância.

Para fazer os lápis, placas de madeira de cedro com sulcos semicirculares recebem os cilindros de grafite e argila. Estes conjuntos são colado a outras placas com sulcos e os lápis são finalmente separados (veja-se este poster da Viarco ou o site da Faber-Castell).

O lápis é económico, a ligação da grafite ao papel é muito estável e a escrita com lápis não é sensível à humidade, luz e agentes químicos. O seu único ponto fraco são as borrachas de apagar que, no entanto, têm um segredo. A borracha natural, mesmo após o processo de vulcanização, não se liga bem à grafite. Por isso as borrachas de apagar têm na sua composição óleos vegetais vulcanizados, também chamados factice, que ligam bem à grafite. No processo de apagamento são arrancados pedaços da borracha que vão levando esse material junto com a grafite, mantendo a borracha utilizável. Actualmente, existem borrachas de polímeros sintéticos, por exemplo policloreto de vinílo (PVC) e copolímero de estireno-butadieno, que são muito eficientes e menos abrasivas para o papel.

[…]»

 

Química das coisas banais: lápis e borracha. Texto integral De Rerum Natura.


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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
Contas

(Não sei se é mesmo assim, mas que parece retirado de um manual de casino, lá isso parece…)

 

«[…]

Ou seja, como funcionam os bancos.

A Ana deposita mil euros no BPX, que fica com um passivo de 1.000€, que deve à Ana, e um activo de 1.000€, dinheiro esse que pode emprestar. Não todo, porque se exige dos bancos que guardem um mínimo em reserva. Cá em Portugal é de cerca de 8% mas arredondo para 10% para simplificar as contas. Assim, dos €1.000 da Ana o BPX pode emprestar €900 ao Bruno, guardando €100 de reserva. O activo continua a ser de €1.000 porque o dinheiro que o Bruno deve ao BPX conta como dinheiro do BPX. O Bruno compra coisas à Carla, que deposita €900 no BPY. Este banco empresta €810 ao David, guardando €90 de reserva, e o David paga algo à Eva, que deposita o dinheiro. E assim por diante. Desta forma, os bancos transformam os €1.000 da Ana em quase €10.000 de dinheiro depositado mais €9.000 em dívidas a juros. Os €1.000 iniciais podem ter sido impressos em nome de algum Estado, mas todo o resto foi inventado pelos bancos.

E não ficam por aqui. Agora o Zacarias quer pedir dinheiro ao BPX, mas este banco já emprestou tudo o que podia. Para poder emprestar mais, o BPX pede dinheiro ao banco central, que empresta aos bancos a juros muito mais baixos do que estes cobram aos Zacarias. Mas o banco central exige garantias. Por isso o BPX contrata uma agência de rating que diz ao banco central que o empréstimo ao Bruno tem uma data de As e é seguro. Desta forma, dando como garantia o dinheiro que já tinha emprestado, o BPX obtém mais dinheiro para emprestar a juros. O banco central, sendo um banco especial, pode emprestar o dinheiro que for preciso desde que lhe dêem estas “garantias”. Isto parece surreal, mas é mesmo assim. E, volta e meia, dá asneira.

Se o dinheiro fosse um conjunto de papeis impressos pelo Estado podia desvalorizar mas não podia desaparecer. Algures teria de ir parar. Só que a maior parte do dinheiro em circulação é um conjunto de dívidas e apostas, com “garantias” que também são dívidas e apostas, num entrelaçado fictício seguro apenas na expectativa de um valor futuro. Assim que se admite que certas dívidas não podem ser pagas, esse dinheiro desaparece. Tem acontecido regularmente. Formam-se bolhas especulativas de promessas e apostas que rebentam e levam com elas enormes quantias de dinheiro que simplesmente deixa de existir. Neste momento, o Banco Central Europeu tem 740 mil milhões de euros em garantias da treta para o dinheiro que emprestou aos bancos comerciais na União Europeia. O tipo de coisas que serve de garantia inclui, por exemplo, títulos de dívida pública portuguesa de 1943 que vencem no dia 31 de Dezembro de 9999. Esses 740 mil milhões de euros só têm valor enquanto todos estiverem convencidos de que essas promessas vão ser cumpridas. Daí o cagaço da reestruturação.

[…]»

Ler texto integral no Que Treta!


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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
... apontamentos do rural agrícola

«Os agricultores vivem hoje asfixiados numa tenaz cujos braços cresceram desmesuradamente a partir da liberalização dos mercados e do crescimento da grande distribuição, alterando numa geração todo o contexto socioeconómico em que se movimentavam. Apesar das políticas agrícolas tentarem desviar, para um lado ou para o outro, o fulcro dessa tenaz, de modo a evitar uma morte súbita, a verdade é que, na maioria dos casos, apenas conseguiram ir substituindo os sectores de actividade e respectivos agricultores nos braços da tenaz, raras vezes possibilitando a criação de uma alternativa credível. Esta situação, facilmente verificável pela simples comparação dos preços dos principais produtos agrícolas e dos factores de produção de há duas décadas com os actuais, é o resultado de políticas agrícolas de tipo macro, mas foi ainda agravada, ao nível micro, com o desmantelamento e fragilização de pequenas estruturas locais que, em última análise, sobretudo em momentos de crise, poderiam constituir uma alternativa realista.

Este cenário não esconde que a agricultura deixou há muito tempo de ter uma importância económica significativa em muitos territórios rurais – os concelhos da Beira Interior são neste caso um bom exemplo -, nem que tal situação deve ser enquadrada no contexto mais vasto da evolução do mundo rural. Recorde-se que, pela primeira vez, no mundo, a população urbana é superior à população rural, embora esta alteração já tinha ocorrido na generalidade dos países europeus há alguns anos e que, independentemente da natureza dos conceitos rural e urbano e dos pormenores que os grandes números não revelam, em particular as especificidades nacionais, regionais ou locais, a verdade é que este fenómeno tem consequências em quase tudo: emprego, ambiente, desertificação, território.

Por outro lado, parece ser hoje consensual que a actividade agrícola não garante a viabilidade das comunidades rurais, assim como o abandono agrícola não implica necessariamente o abandono da terra ou das áreas rurais. Este consenso baseia-se na observação de que existe actividade agrícola desligada das comunidades rurais e uso da terra baseado em actividades não agrícolas. Mas tal pressuposto revela fragilidades graves quando se tenta perspectivar um futuro em que se sobreponham de forma virtuosa as dimensões económica e social dos espaços rurais, por um lado, e as características multifuncionais da agricultura, por outro, na ausência do principal agente de ligação entre estes diversos elementos - o agricultor – e na mitigação da sua função - fazer agricultura.

Estamos assim num tempo de mudança, num momento em que existe a convicção de que é possível a partir dos actuais agentes do mundo rural densificar um conjunto de relações económicas e sociais que permita, de uma forma sustentada mas necessariamente lenta, restabelecer um equilíbrio perdido. Não se trata de um retorno, mas da certeza de que a agricultura continua a ser a única actividade capaz de estabelecer uma matriz coerente de desenvolvimento para os territórios. Sem agricultura e sem agricultores, esses territórios ficariam reduzidos a pequenas ilhas dispersas, sem a necessária continuidade funcional, única forma de garantir a sua sustentabilidade.

Essa mudança faz-se obviamente com os agricultores, sejam eles casos de sucesso ou simples resilientes deste período de intensa intromissão das políticas agrícolas, mas também com novos agentes do desenvolvimento rural, em alguns casos como resultado da atracção do rural e de um novo paradigma de qualidade de vida, mas noutros apenas como consequência da repulsão dos centros urbanos face às insuficiências socioeconómicas resultantes da crise.

Neste ambiente de profunda mas lenta transformação do rural, há um novo papel de intervenção do poder local que, esgotada a fase da obra, característica do modelo de intervenção das últimas décadas, se pode voltar agora de uma forma decisiva para território. Esta intervenção do poder local no rural é já perceptível em alguns casos concretos. Não se espera que substitua os agentes locais, mas apenas que utilize a sua presença institucional e a sua capacidade financeira para fomentar a organização de funções produtivas onde a rarefacção de actores e de agentes não permite criar redes de desenvolvimento suficientemente sólidas. Espera-se ainda que os responsáveis do poder local estejam preparados para este tipo de intervenção, claramente de tipo imaterial, com resultados de médio ou longo prazo e sem a visibilidade de outras realizações.

Definitivamente o rural mudou, transformando-se num espaço cada vez menos habitado. Os desafios do futuro estão em conseguir actuar sobre estes territórios, evitando a degradação dos seus recursos e a consequente expulsão dos residentes que restam. Os tempos de mudança constituem oportunidades de futuro. Não existe nenhum dramatismo nesta evolução, mas seria trágico que se ignorassem as consequências.»

 

Artigo publicado na Revista VIVER. Nº17. ADRACES.


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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
Pritzker 2011

(… no meio de tanta mediocridade, é bom ouvir notícias destas! Transcrevo parte do discurso de Souto Moura no momento de receber o prémio Pritzker)

 

«Exmo. Sr. Presidente dos EUA, Presidente do Júri, elementos do Júri, meus Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores,

Só quando recebi o convite dizendo “Eduardo Souto de Moura of Portugal” é que acreditei que tinha ganho o Pritzker 2011. Não posso esconder que fiquei feliz, por mim, pela minha família, colaboradores, amigos e clientes. Em nome de todos, os meus sinceros agradecimentos.

Aprendi a desenhar na Escola Italiana do Porto, cidade onde nasci, e no liceu decidi ser arquitecto. Não é que tivesse alguma paixão especial pela disciplina, mas na crise agnóstica dos 15 anos, duvidei se Deus devia ter descansado ao 7º dia. É que, pensando bem, ficou por fazer uma geografia como a de Delfos, a Acrópole para receber o Parténon ou secar um pântano no Illinois, onde a Farnsworth pudesse ficar.

[…]

Com 10 séculos de História, Portugal encontra-se hoje numa grande crise social e económica, como já aconteceu em vários períodos anteriores. Hoje, como ontem, a solução para a arquitectura portuguesa é emigrar. Como dizia Paul Claudel: “Le Portugal est un pays en voyage, de temps en temps il touche l’Europe”. Resta-nos a “mudança”, como quer dizer a palavra “crise”em grego. Resta-nos decifrar o significado dos dois caracteres chineses que compõem a palavra “crise”: o primeiro significa “perigo”, o segundo “oportunidade”. Em África e noutras economias emergentes não nos faltarão oportunidades, o futuro é já aí. "Trabalhar na transmutação, na transformação, na metamorfose é obra própria nossa.”»

 


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Publicado por Fernando Delgado às 22:45
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